segunda-feira, 17 de abril de 2017

SALMO 2017

Não me sai da vista e da medula aquela multidão de escravos judeus a caminho da liberdade,  atravessando a vau o ‘Mar Vermelho’ – da cor das algas submersas. Por isso, aqui vai este sopro que tanto pode ser de elegia, fúria ou grito de esperança


Adeus terras do  Egipto
Onde ficaram
Quarenta anos a ferros
E mil vezes quarenta ‘nilos’ de escravidão

Muralhas de pedra d’água
Abri-vos em cachão
Que aqui passa Israel
O eleito de Iahveh
Ontem cinza hoje de pé

Pousados na outra margem
Viram os nossos olhos
Cavalo e cavaleiro
Sepultados nesse mar
Onde passámos primeiro

Em sal e pó
Desfez-se o império faraó


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Senhor
Hoje o mar é vermelho
Não das algas mas do sangue
Que os nossos corpos deixaram
Nas quilhas das barcas de pinho
Covas do fundo marinho

Já não há muralhas de água
Senão monstros de mil fauces
Armas  drogas  petro-cheques
Devorando o leite materno
Engolindo mães e filhos
Nos mercados subterrâneos
Que traficam  sonhos  ossos veias crânios

O mar avaro  avança
Alaga os campos e as praças
Ergue muros farpados  bidonvilles
Senta-se à mesa tísica do chão
Onde não há talheres nem taças
Só o podre da prisão

Quem aí  vivendo  morre
Jamais cantou  ou cantará
Iahveh  Hallelluiá

Todo o planeta é vermelho
Não há cravos  algas ou manhãs
De uma Páscoa anunciada
Só  assad’s erdogan’s
Moab’s   trump’s, kim’s  e putin´s

Porquê Senhor
Não regaste os cardos  do Calvário
Com o champanhe que corre nas entranhas
Dos sumos-sacerdotes ?


Porquê  Senhor
Só sangue de inocentes serve
Para  irrigar montanhas ?

PERDÃO   
Senhor
Por não contar contigo
Ver-Te por aqui
Na gávea  do terror
Eu não consigo

Nem mandarás Moisés
Enxugar as lágrimas do mundo
Chagas de avós sangue de bebés
A sua vara não mudará o nosso luto
Nem atravessaremos  o mar
A pé enxuto

Nem  Tu o conseguiste
Desde essa tarde negra e triste
Da colina redentora


A Páscoa será duradoura
Se for nossa
Quanto queira tanto possa
A força dos braços abertos
Para a luta e para a paz

A Terra da Promissão
Só a alcança
Quem esconjura os fantasmas
Da servidão

Nunca será inteira

Mas de cada Sexta-feira
Faremos o Domingo
De toda a libertação

17.Abr.17
Martins Júnior