terça-feira, 19 de setembro de 2017

PORTUGAL ANDA NA RUA


Hesitei no titular este nosso – hoje, breve  - convívio epistolar.  Entre dizer “O Poder está na Rua” e “O País saiu de Casa”, optei pelo impacto visual que, a partir de agora e durante dez dias ininterruptos, surgirá diante dos olhos e dos ouvidos de toda a gente. É a campanha eleitoral. Dedico-lhe estas linhas com a frieza do espectador distante e, ao mesmo tempo, com o empenho e o ardor de quem já viveu até à exaustão o verve buliçoso desta inolvidável estação.
Bandeiras, tambores, foguetes e balões vão clonar-se com hinos, decibéis, arruadas, cornetas e palavras… sobretudo as palavras que, se não forem colocadas no lugar certo, correm o risco de aturdir os ouvidos e ‘estrebuchar-se’ no chão como foguetes suicidas. Nunca como agora, nesta novena-dezena pré-eleitoral, misturar-se-ão na mesma rua amores e azedumes intestinos, simpatias e esgares, palmas e palmadas, ‘vivas e morras’ emotivos, enfim, um brouhaha (passe o galicismo) ensurdecedor mas divertido, porque multicolor e expansivo. Vejamos com humor e bom senso as viaturas que deslizam como andorinhas fugazes, os risos-sorrisos deles e delas pinchados na folha fluorescente dos capons-auto, acima de tudo ponderemos a Palavra e as palavras. Sempre o peso e a autoridade soberana  da Palavra para, mais tarde, confrontá-la com os factos.
Faço votos para que não haja batidas à-toa, ultrapassagens saloias, pregos nos pneus de concorrente para concorrente e, mesmo nas curvas, haja o discernimento suficiente de não atropelar os espectadores, seja nos palcos e comícios, seja no áudio-visual, seja nas redes sociais, porque aí começa a derrapagem e lá se vai abaixo o almejado pódio, porque o Grande Júri  será o Povo, o tal espectador, silencioso e atento na berma da estrada.
Aos candidatos oradores deseja-se o Dom da Palavra.  E o dom não está no gesto ou no peso – que se não faça do microfone um calhau para atirar sem jeito, porque “fala fora da boca é como pedra fora da mão”. O dom também não está no grito, porque (relembro a tabuleta que vi escrita numa rua de São Paulo, Brasil)  “Se grito fosse valentia porco seria herói”. O dom não está no olho estrábico que falha a direcção e só vê o buraco da véspera, o saco de plástico ou o urinol mal colocado. Já assisti a tudo isso. E é tudo isso que fede ar nauseabundo e afasta o Juiz-espectador.
É de saudar a presença feminina, saudável e libertadora, na rua e no palco. Que a sua particular sensibilidade imprima elegância e verdade no discurso público. Sobretudo, que se não volte à barbárie verbal e factual que durante quase quarenta anos os madeirenses tiveram de suportar.
Finalmente, nesta corrida não há grandes nem pequenos. Todos são grandes e todos são pequenos. Se os houvesse, eu passaria aos pequenos a receita do grande Apeles, príncipe da pintura grega: “Não suba o sapateiro acima da chinela”. E aos grandes (ou que assim se julgam) prescreveria a máxima de Luís Vaz de Camões: “É fraqueza entre ovelhas ser leão”. (I,68).
Boa luta, melhor campanha.  Para nós, ilhéus, traduzo o título: “A Madeira anda na Rua. Nestes dez dias, o Poder está na Rua. Porque a Soberania está no Povo”. (CRP)
Vê-lo-emos no 1º de Outubro!

19.Set.17
Martins Júnior