segunda-feira, 11 de setembro de 2017

“SE O PAPA FRANCISCO VISSE ISTO”…


“Muitos padres e bispos e cardeais não gostariam do que hoje acontece nesta festa. Mas o Papa Francisco se visse isto, de certeza, ficaria muito contente”. Logo de seguida, o orador sacro justifica: “Uma festa transparente em que todos participam, crianças, jovens, idosos… Uma missa alegre, fresca que nos dá saúde e alegria”.
Trago aqui as palavras  com que, ontem, o Prof. Doutor Padre Anselmo Borges iniciou a cerimónia comemorativa da Festa da Senhora do Amparo, na Ribeira Seca. Com este testemunho de quem calcorreou durante cinquenta anos a trajectória do sacerdócio – e, daí, a nossa homenagem associada – encerro hoje os conteúdos que  o Senso&Consenso apresentou durante mais de uma semana.
E agora aproveito o momento para concretizar alguns dos traços identificativos que levaram Anselmo Borges a proferir tais declarações. Com efeito, quem nos visitou neste fim-de-semana deve ter notado que não há nenhuma barreira arquitectónica, nem sequer uma nesga de cortina entre o templo e o parque da festa focalizado no palco aberto. Aqui a alegria é meridiana, sem tracejados de espécie alguma, passeando-se entre  o adro e o altar, porque a brisa que o Povo respira tem o mesmo espírito desinibido, franco, libertador. Assim acontece quando o Povo é o Autor e o Actor das suas festas, como já referi ao longo destes dias ímpares. Sem lisonja nem tiques narcisistas, a verdade é que os seis ‘sítios’ desta comunidade  fizeram desfilar no palco o gracioso friso coreográfico, onde mais de cem “artistas do Povo” cantaram o passado, o presente e o futuro.
Julgo, porém, que a motivação maior do testemunho do padre filósofo e teólogo consistiu na forma e no estilo da cerimónia litúrgica. Não apenas, as vozes espontâneas acompanhadas da tuna de bandolins, mas a transparência e a serena liberdade expressas  no olhar dos participantes, a eliminação de rituais frios, maquinais, ininteligíveis para quem assiste. As vestes talhadas pelos figurinos egípcios dos faraós, os rendilhados de ‘lingerie’, os rostos hieráticos como estátuas – todo esse ridículo artifício não pode coexistir naquele  recanto de espiritualidade e catarse global. Na hora da Comunhão, o nosso Cristo e a Sua Memória não precisam de estafetas-diáconos nem pombos-correios para entrar na boca e no coração das pessoas. Cada qual obedece, se assim optar, por um impulso interior assumido e dirige-se pessoalmente à Mesa da Igualdade e da Fraternidade, cantando desinibidamente que “O Senhor ficou na Eucaristia para dar a todos pão e alegria”. O cortejo processional ao longo das ruas principais reúne um ‘mar’ de gente, mas ninguém comete o sacrílego gesto de comprar Deus ou a Senhora com um coto de vela a que chamam “promessas”.
A leitura de um texto bíblico feita por um dos presentes e por ele comentada, sem censura nem limitação do pensamento livre, constitui um dos motivos de atenção e ponderação dos participantes. É a palavra dada (melhor, restituída) ao cristão personalizado, consciente do seu lugar na Igreja.

“Se o Papa Francisco visse isto ficaria muito contente”. Razão tem o nosso pedagogo Anselmo Borges. Porque é esse Homem, “vindo do fim do mundo” que outra missão não tem senão o de injectar Vida nas veias de um cristianismo anémico, esquálido como as estátuas de cera,  de ‘pantalha’, que transforma o acto libertador da Eucaristia numa “camisa de onze varas”  onde se é obrigado a estar mudo e quedo durante uma hora ou mais. Como aquele cardeal africano, de nome Sarah, travestido de pasteleiro (a afirmação é da minha responsabilidade) para quem a validade da  Comunhão depende de ter ou não ter glúten na hóstia!!!... Ó Cristo, vem ver a que reduziram a Tua Entrega Total ao ser humano, nessa noite de Quinta-Feira Santa! A um pó de glúten! Este é o mesmo cardeal, ‘Príncipe da Igreja’, que enfrenta o Papa Francisco e exige que o Celebrante tem de voltar a rezar a missa, de costas para  os cristãos…
“Se após este Papa vier um outro, de estilo dogmático-tradicionalista, a Igreja afunda-se” – conclui o teólogo citado em epígrafe. Séria reflexão!   
  Escrevo e aperto a cabeça entre as mãos, ao “rever” esse bárbaro ataque às Torres Gémeas, de Nova York. Faz hoje dezasseis anos! E intimamente, comovo-me e completo o cântico da Comunhão da nossa festa:
“Porque o Senhor ficou na nossa terra
Gritamos NÃO à fome, NÃO à guerra”.

11.Set.17
Martins Júnior