quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

TRÊS DIAS DA MADEIRA EM LISBOA!

 
Hoje saio à rua, prosaico e directo, despido de abafos, mesmo com estes doze graus celsius,  para constatar que quem vive adormecido, pior se for “à sombra da  bananeira”,  só  acorda  se  lhe  tocar algum tsunami  distante.  Refiro-me  ao  concerto  mundial  de  protestos  e  imprecações  que provocou  o ataque assassino  ao “Charlie  Hebdo”, em Paris.  E entre  mortos  e feridos, toda  a  gente  entrou  em  sobressalto  com  os  destroços  daquilo  que  enche os  lençóis de  jornais e  os meios  audiovisuais:  a Liberdade  de  Imprensa.  A Madeira do crude e das aluviões não foi excepção: também  acordou. E vai  daí, iça  a  bandeira e  lá  vai, mar  alto, discutir na  “capital do Império”  a liberdade de imprensa da  e  na  Madeira.  É  uma  coisa  assim parecida  como quem  perde  uma  agulha  num  palheiro  em Santana  e  vai procurá-la  num  hotel  de  Lisboa.
Achei  peregrina e  missionária  esta iluminação  de  levar  à  diáspora madeirense  o nosso  “estado  da nação” e, ainda por cima,  quando concebida  por  agentes  responsáveis da  informação na ilha.  Isto  traz-me à  memória  a  intervenção  que  fiz  em 1985  na Assembleia  Regional  a propósito  dos   atentados  do governo regional  contra  uma  propriedade, pertença de uma  comunidade  em  Machico,  os quais foram largamente difundidos na  imprensa  nacional  e  praticamente  silenciados na  Madeira: “Será que voltámos   ao  tempo  do salazarismo,  em  que  para  sabermos  notícias  de  Portugal,  tínhamos  de ler  os jornais  estrangeiros ?”.

E nós, por cá,  tudo  bem !
Se  os  directores e  os  correspondentes  entendem  engalanar  as  suas edições garrafais a favor  dos  apaniguados  e  esconder ou baralhar propositadamente  as iniciativas de  quem  é  “persona  non  grata”  ao  decisor-censor, tudo bem! Quando,  aereamente  sentado ao  microfone,  o  “radialista”  madrugador anuncia para esse  mesmo  dia  uma  iniciativa  que  já  tinha  ocorrido  três  dias  antes, tanto  melhor!  E se  um  jornalista de  televisão  faz  a reportagem,  entrevista  os  promotores,  monta  a  peça  e, ao depois,  o decisor-censor  fecha-a  “a  cadeado”  na  gaveta  do  seu  amurado  directório,  então  óptimo!
Terão  certos e determinados moderadores  e  doutos prelectores da ilha  manifestado à “diáspora” em Lisboa  estas poéticas  liberdades de expressão ---  vista, falada  ou escrita ---  de  que também  têm  sido  cúmplices,  embora  vítimas  do  medo  hereditário  do  regime insular?  Não  sei.  Só  falo  daquilo que vi, vejo e sei. “O que é  que quer que  lhe  diga?...  Isto  é  o  meu  ganha-pão” ---  foi com imensa  mágoa  e não  menos  compreensão  que  recebi  a  justificação  de  um  profissional  da informação face  a  uma    legítima  observação  crítica da minha  parte. Há  muitos  anos!
Já nem falo desse parto incestuoso dos dois poderes, o eclesiástico e o político, e que eu classifico como o “cardápio dos mortos”, onde o Paço Episcopal  (aqui tenho de fazer censura ao verbo mais adequado que me apetece aplicar)  se deixa mascarrar e manietar pela Quinta Vigia. Ainda assim, reconheço-lhe o papel de idiota útil para obrigar a que o “colega” rival lhe faça alguma diferença e não se contaminem os dois com a tinta da mesma rotativa em que ambos são impressos.
Quantos e tantos madeirenses gostariam de ver e participar no mesmo debate, mas aqui na ilha, como aquele que supostamente foi levado ontem e hoje à “diáspora” madeirense sediada em Lisboa!
Enquanto isso, foi-nos dada a tribuna das redes sociais que, apesar e descontados os excessos sem cotação, nos permitem alcançar uma parcela, ao menos, de um pensamento livre.
Ouvi dizer que, em breve, um punhado de corajosos madeirenses (alguns deles, por serem os melhores e mais honestos jornalistas, foram “aumentados” e despedidos) abrir-nos-ão em edição “on line”  o palco aberto onde se respire o ar  puro da Liberdade de Expressão!
Daqui lhes envio o abraço de feliz sucesso  na Ilha do Medo e da Mordaça.   

29.Jan.2015

Martins Júnior