segunda-feira, 23 de março de 2015

A HOMENAGEM A UM BENEMÉRITO DA HUMANIDADE


         Tal como sucede com os densímetros avaliadores dos homens (que não se medem aos palmos) assim também acontece com as homenagens, cuja densidade não se afere pela barafunda publicitária, quantas vezes falaciosa e subserviente ao poder e ao dinheiro. Valem as homenagens pela frescura transparente das emoções, fruto da lealdade eloquente da sensibilidade e da lógica, mais que as girândolas do palavrório  rotineiro.
         A exaltação do Pe. Mário Tavares Figueira, ontem, na Ribeira Seca --- para comemorar a terceira década vitoriosa contra as arremetidas tribais do poder religioso e do poder político em 1985 --- foi um perfeito momento do verdadeiro preito de homenagem prestada a alguém: Longe dos olhares turvos da imprensa local e das embaciadas lentes das câmaras televisivas, desenrolou-se um vasto cenário de intimismo, grandeza e profundeza de conceitos e sensações, digno de uma paisagem multicolor, quase mística.
         No templo da Ribeira Seca, os amigos sacerdotes  Pe. José Luís Rodrigues, o Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges e eu próprio. À roda da mesa comum da ara sagrada, a comunidade local e os muitos amigos, uns daqui da ilha e outros, de mais longe, associaram-se a este júbilo colectivo, quer presencialmente quer através das muitas mensagens que ali foram lidas. Gente do povo, professores, intelectuais, políticos, poetas e até os titulares autárquicos, presidente da Câmara Municipal e presidente da Junta de Freguesia, a que se juntaram o genuíno canto popular religioso e as  primorosas vozes do Grupo Coral de Machico, todos confluíram no mesmo efusivo abraço ao Pe. Tavares. Dado o tempo chuvoso que caía sobre o adro, os brindes e o partir do bolo fizeram-se mesmo dentro do templo, prolongando o espírito da comunhão eucarística.
         Embora já lhe tenha dedicado a minha saudação no acróstico editado no anterior “dia ímpar”, aproveito o ensejo para, entre a vasta enciclopédia que é a trajectória do Pe. Tavares, destacar três momentos históricos que marcam a vida corajosa deste homem:
         1º - Aquando da ocupação da igreja da Ribeira Seca, enquanto o bispo Teodoro invocava o código canónico para dizer que o padre tem de estar com o bispo para poder estar com Cristo, pois o Pe. Tavares escreveu-lhe uma famosa carta aberta onde citava um outro normativo, este evangélico e universal: “Para que o padre esteja com o bispo, é necessário primeiro que o bispo esteja com Cristo”, significando que aquela ocupação  era a demonstração de que a atitude episcopal estava  do avesso do exemplo de Cristo.
         2º - Para que o povo tomasse consciência do seu poder comunitário, fundou na sua paróquia o cooperativismo que, como na cerimónia muito bem disse o Pe. Dr. Anselmo Borges, é este sistema --- o cooperativismo --- que melhor actualiza o autêntico padrão social do Evangelho.
         3º - Quando o bispo, o mesmo que mandou ocupar o citado templo, afirmou que o pederasta Pe. Frederico, seu secretário particular, (condenado a 17 anos de cadeia) era comparável a Jesus inocente na Cruz, aí o Pe. Tavares não suportou  uma blasfémia tão sacrílega, então rompeu abertamente e deu um outro rumo à sua vida, tornando-se deputado da CDU na tribuna da Assembleia Regional onde passou a defender uma sociedade limpa, combatendo vigorosamente a escandalosa aliança, até às raias da submissão da diocese ao governo da Madeira.
         Cada um destes momentos históricos, só por si, bastaria para assinalar e imortalizar a personalidade inquebrável de um Homem ao serviço de toda a Humanidade. A História escreve-se com gente desta estirpe.
         Obrigado, Pe. Tavares. Como afirmou um elemento da nossa comunidade, sem o Pe. Tavares a Ribeira Seca hoje não seria o que realmente é.

23.Mar.2015

Martins Júnior