Nesta
altura de viragem do Cabo das Tormentas de 38 anos de mini-adamastores para o
Cabo da Boa Esperança no mar largo que rodeia o nosso arquipélago, entendo que
todo o cidadão tem uma ideia, um poema, um grito de trombeta vibrante e tem
obrigação de proclamá-los neste que é um tempo novo e uma nova linha de
horizonte. Agora mais do que nunca, o povo sente-se livre, livre, na manhã
virgem de um novo dia. Acabaram-se os medos, quebraram-se as algemas,
desapertaram-se as amarras que nos prendiam ao velho do restelo que ameaçava
quem quisesse ir mais além da sua horta de sapos e répteis de veludo. Povo das
ilhas, agora iça a vela e faz-te ao largo!
E
nesta largada determinante --- como determinante e mal-aventurada foi a partida eleitoral de 1976, que se apantanou
durante quatro décadas --- o meu alerta e o meu poema continuo a defendê-los como
um luzeiro na alta gávea do navio: construamos
o futuro da Madeira chutando para longe o tubarão chamado Maioria Absoluta!
Nem perco tempo com cartazes, com desordenadas “palavras de ordem” sempre
iguais, muito menos com promessas por mais aliciantes que sejam. Pedindo
desculpa se acaso vos maço com variações sobre o mesmo tema, acho que o
importante é aprender a lição da história: entregar todo o poder nas mãos de um
só jovem, passar procuração para mexer no nosso dinheiro a um único caloiro (como
aconteceu desde o início, repito, até agora) significa o suicídio da nossa
autonomia colectiva.
Digo
caloiro, porque caloiros são todos os que agora se apresentam ao balcão do
supermercado da Política. E eu pergunto: vamos dar a um novato o diploma de doutoramento, apenas por causa
de meia dúzia de fretes que fez ao “Prof” da cadeira? Lembremo-nos que são
todos serventes, aprendizes. E vamos nós passar a carteira profissional de
mestre ou arquitecto ao aprendiz que até agora só soube fazer massa grossa no
prédio que pretende chamar seu? Não digo que lhes faltem engenho e arte, mas
escasseia-lhes “o saber de experiência feito”, sendo que este “saber maior” é o
de aprender com o colectivo, estar conectado com todas as redes comunicacionais
que o povo lhes envia através de todos os seus legítimos representantes. Nesta
altura, da reincarnação da autonomia popular, os eleitos têm de passar por um
tirocínio, aquele estágio oficinal e tão forte e impressivo que não lhes suba à cabeça a tentação da
infalibilidade que, neste caso, mais não é senão tacanhez de espírito e
cegueira de Nero.
Ar fresco, vento norte, saudável e
criativo é o que faz falta naquele amordaçado Parlamento. Isso só será possível
sem maiorias absolutas.
Para
que todos estejamos em pé de igualdade lá dentro --- igualdade de direitos e
deveres, igualdade de respeito e convicções --- só há, em minha opinião, dois
indicadores: Primeiro, não ficar em
casa. É ditado antigo: quem desiste já está vencido. Segundo: estar atento às sondagens que, embora valendo o que
valem, dão-nos informação aproximada. Aqui e agora, é preciso não apostar no
mesmo cavalo, seja ele qual for.
Finalmente,
consideremos que, com a criação de um único círculo eleitoral na Região, todos
os votos convergem para uma mesma e única urna e todos são aproveitados, seja o
das cidades, seja o do mais remoto lugarejo. É o que se pode chamar a globalização dos votos. Ora, todos sabemos
os efeitos desastrosos desse fenómeno sócio-económico, à escala global, em que
o suposto “bem” da globalização tornou os fortes ainda mais fortes e os fracos
muito mais fracos, inclusive, a destruição da classe média.
Na
votação global de 29 de Março, não deixaremos que os adamastores fiquem mais
ameaçadores e os frágeis nautas portugueses que somos nós se sintam mais
ameaçados. Contribuamos, esclarecidos e vigilantes, para desta vez construir o
ideal social mais justo: uma Assembleia igualitária, em direitos e deveres. Se Assembleia
e Governo forem respeitadores, o Povo será
mais respeitado.
17.Mar.2015
Martins Júnior
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