quinta-feira, 9 de abril de 2015

DA MEMÓRIA PASSADA PARA A MEMÓRIA FUTURA OU DE COMO SE FABRICARAM MAIORIAS ESMAGADORAS


Da parte do “Senso&Consenso” ainda não saiu nem ai nem pio sobre aquela monumental estátua à mais supina ignorância aritmética de onde emergiu a maioria absoluta da mesma tribo política de outrora, fazendo-nos lembrar as urnas do fascismo em que a sempre velha União Nacional tinha de ficar nos “cornos da lua”, como bem define a nossa gente.
Pois bem: vou tentar hoje exumar, em tom jocoso, aquilo que na altura foi dramático, para ver-se, a olho nu, como é que as tais urnas do salazarismo continuaram a parir maiorias gémeas no regime da Madeira Nova, tradução do extinto Estado Novo.
Apenas dois casos:
Decorria o acto eleitoral em determinada freguesia do meu concelho. Era aí o baluarte, o bunker agrilhoado do PPD. Sabíamos quão difícil seria a presença da oposição, visto que aos nativos incutiu-se-lhes um ódio visceral, fruto de uma catequização cerrada: eles, a oposição de Machico, “comiam criancinhas ao pequeno almoço e davam uma injecção na orelha para matar os velhinhos”. De onde, tornava-se impossível fazer uma sessão de esclarecimento público, dificílimo formar uma lista completa de residentes na área e, aqui é que é o cúmulo: não era permitido aos delegados de lista permanecerem na sala para a contagem dos votos, sob pena de não saírem vivos. Eram, deveras, assustadoras as ameaças e os esgares gritantes que vinham do exterior, dos pobres populares da zona que o PPD transformava em embriagados e tresloucados “jagunços”, capazes de tudo. Os nossos delegados lá tinham de sair, injuriados e maltratados pelos tais, as viaturas eram apedrejadas. Ou, em alternativa, tinham de fugir, na escuridão, por atalhos e veredas que mal conheciam, até que, por mais de uma vez, surgia um elemento do CDS (honra lhe seja feita!) figura grada e senhorio no sítio, que, envergonhado com aquelas barbaridades,  transportava os nossos delegados para Machico. No dia seguinte, apareciam os resultados: maioria absolutíssima do PPD.
Este e outros humilhantes cenários passaram-se como vos descrevo e tem nomes de lugares e pessoas. Só os não menciono aqui para não as magoar e porque, sobretudo, a referida freguesia, feudo enjaulado do PPD, libertou-se e infligiu a pior derrota ao partido tirano nas últimas eleições autárquicas.   
Outro episódio e noutra freguesia:
Era presidente da Junta um sujeito, comerciante endinheirado recém-chegado da Venezuela. Espadaúdo, bigodaças tribais, transmitia a imagem inteira de que tinha a profissão de “boxeur”. Apresentei-me na sala da assembleia de voto, mostrei ao presidente da mesa a minha credencial como candidato à Câmara Municipal de Machico. Nessa altura, alguém segredou uns sussurros ao ouvido do dito cujo. Estava lá também o subchefe da PSP de Machico, comparsa da farsa. O “vilão”, coitado, levanta-se como um leão endiabrado: “Ah, sim?.. Então põe-se-no já na rua”, bradou. E avança, tudo sob os olhares cúmplices do subchefe, tenta manietar-me os braços atrás das costas. Aí, levantei a voz: ”Sr. subchefe, vou participar de si ao comando e ao tribunal!” Foi, então, que o homem, mais um que o PPD virou “jagunço”,  perdeu o fôlego, ao sinal da polícia.  E lá continuei, impávido e atento, até ao fim da votação.
Para azar dele e sucesso meu, foi o ano em que o PPD saiu derrotado e ganhei a presidência da Câmara. Visitei-o, uma semana depois, no seu estabelecimento comercial e o homem desfez-se em desculpas, tartamudo, alegando que fora enganado, pois nem sequer me conhecia. Tornámo-nos amigos e, com grande surpresa minha, vi, uns anos mais tarde, o seu filho na vanguarda da luta como sindicalista presidente. As voltas que o mundo dá!
Não tenho qualquer dúvida nem pestanejo se afirmar que as vitórias esmagadoras (que esmagaram, de verdade, a honra desta Região) vitórias ebriamente festejadas pelo PPD, foram forjadas nas oficinas enfumaradas do obscurantismo e da exploração do povo crente destas ilhas.
Mas o que confrange e revolta é a impunidade com que tudo isto se passa diante dos nossos olhos. Não houve sanções, reprimendas, não houve nada. Por isso, respeitando, embora “vencido”, a justiça formal do Tribunal Constitucional, entendo que deveria apurar-se a verdade material dos factos, fosse qual fosse o vencedor. continuamos com a sensação de que nesta terra tudo fica impune. Pior ainda: este governo toma posse sob protesto  abafado da opinião pública.

9.Abr.2015

Martins Júnior