sexta-feira, 5 de junho de 2015

UM MERCADO DE CINCO SÉCULOS “FEITO” PELAS MÃOS DO NOSSO TEMPO!

“Todos os anos, pela primavera” --- lá estou outra vez pegado com Luís Sttau Monteiro --- Machico regressa ao berço de antanho, envolto no pergaminhos régios do foral manuelino, alcandorando as luminárias do poder que passa, ridente e solene, sob o pálio segurado por menestréis e cortesãos. E lá vêm as condessas e as donzelas da corte, as respectivas aias de saias em redondel, enquanto as charamelas, os alaúdes e os tambores enchem as ruas e os corações. É bonito de se ver a capitania virgem do Império, a nobreza de outras eras, os torneios e os saraus nos salões do “Tristão das Damas”. Fiel à história, não podia o cortejo esconder os magros artesãos, o coro dos escravos, os homens livres e os homens bons. Todos os anos, pela primavera, Machico volta a ser “uma nação”, como de há décadas dizemos nós em terras de Tristão Vaz.
Deste espectáculo que já vai na sua 10ª edição, pode afirmar-se  aquele refrão que “é sempre antigo e sempre novo”. E por sê-lo, de sabor tão denso e tão inspirador, recolho-me, mesmo no meio da imensa multidão, recolho-me sim e sublinho algumas conclusões que ficam para além do rasto efémero dos três dias de festejos.
Em primeiro lugar, o valor estrutural desta iniciativa não fica a dever nada às cúpulas da ilha ou das ilhotas pardas ou bastardas. Nasceu da raiz mais pura e livre: a sua população, designadamente, a comunidade escolar. Carregada de um nobre sopro de portugalidade, a partir desde logo da sua criadora, a distinta Professora Raquel Esteves  que no-la trouxe do território continental  e enriquecida com o profissionalismo do VIV’ARTE, a iniciativa ganhou seiva e fruto na força telúrica da juventude de Machico, com a  eficiente colaboração da autarquia.  E com tal pujança que a todos arrastou no cortejo e na praça de mercar os manjares cozidos e temperados pela criatividade dos nossos ancestrais. Embora a baixa de Machico fervilhe, a mais não poder, de gente de fora nestes três folgados dias, a sua grande  e  indissociável matriz está na comunidade local,  como protagonista integral do “Mercado Quinhentista”, com professores e alunos logo à cabeça. Num teatrinho de aldeia em que os “Donos Disto Tudo” transformaram e açambarcaram a ilha e a sua respiração, é meu prazer relevar o carácter autóctone da iniciativa e é meu dever pedir a quem a dirige a coragem e o bom senso de, sem prejuízo dos mais amplos apoios, nunca  deixarem que os habituais manipuladores do poder ou do dinheiro tomem o cadastro de tão rico caudal de cultura e património.
Outro índice que me  fica deste imenso Livro de História, ao vivo, é a trajectória que a Primeira Capitania da Madeira tomou ou foi obrigada a rumar neste cinco quase seis séculos de vivências legadas de pai para filho. O rochoso dinossauro que descansa a cabeça no cais do Desembarcadouro e os altos promontórios da Ribeira Seca e dos Maroços interpelam-me e interpelam-nos a todos, como que a perguntar: “Que fizestes do brilho deste que foi o Pórtico das Descobertas?... Onde paira a estirpe dos que desbravaram as terras e firmaram a nobreza deste Povo?... Que é feito deste mar, onde o sol nasce primeiro?...
Suspendo esta  auto-inquirição,  porque dói-me ver, de há alguns anos a esta parte, empalidecer o “esplendor” desta “nação” que é Machico. Porque daí surge um outro interrogatório: “E tu, sim,  que fizeste tu para reerguer esse esplendor? Conforta-me recordar Álvares de Nóbrega, intrépido defensor dos ideais da Liberdade, Igualde e Fraternidade. Consola-me a memória dos resistentes de Machico na luta entre absolutistas e liberais, na Revolta da Madeira, na “Revolução do Leite”, na Revolução dos Cravos, numa palavra, contra a subserviência, que lhes fora imposta.
Foi enternecedor ver os novos inquilinos do Palácio,  distribuindo abraços e beijos tão dourados e importados como a areia da praia amarela e, armados em novos descobridores, desafiarem os comparsas: “Agora digam que Machico não é uma nação!” Só agora! Não muito longe vai o tempo em que vituperavam a sete línguas que “Machico é terceiro mundo”,  a que um mais raquítico secretário acrescentava: “Isto é o quarto mundo”. Eles, quero dizer estes, também estavam lá,  sentados à mesa do Orçamento, mas ninguém os viu defender aquela que agora chamam “nação”. É urgente chamar a contas quem tanto fez sofrer  o  Povo de Machico. É chegado agora o tempo da reparação. É isto que espero ver  daqui a um ano no próximo “Mercado Quinhentista”.
 “Quidquid recipitur ad modum recipientes recipitur”.           Perdoem-me esta escorregadela para a “minha” tão gostosa língua de Cícero. Mas traduzo: “Tudo aquilo que é recebido toma a forma do recipiente”, ou seja, cada qual interpreta a mensagem segundo a sua sensibilidade.  Para mim, é este invisível sumo alimentício --- e muito mais --- que me fica do belo tríduo patriótico chamado “Mercado Quinhentista”, prestando em troca o meu reconhecimento pelo ingente esforço dos seus mentores e figurantes.
Termino, na mesma linha de responsável optimismo, retomando a palavra de ordem com que a Comissão Executiva, de que fiz parte,  encimou na década de 1980  as comemorações da Descoberta:  “NA ROSA DOS VENTOS, MACHICO À PROA!”

5.Jun.2015

Martins Júnior