quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AS DESGRAÇAS DE UMA “SENHORA IMAGEM” --- a propósito do comentário que veio de longe




Que bom é saber que alguém nos escuta. E a melhor prova  de que alguém nos escuta é ouvir o eco da sua voz. Este SENSO &CONSENSO não teria senso nenhum se não provocasse o debate, a discussão que é, ao fim e ao cabo, a nascente irradiante da luz. Quero, com isto, referir-me ao comentário de Fernando Vouga    quando, acerca do meu escrito, de 13/Set/15, sobre a Festa do Amparo, comentou:  “  Com todo o respeito e consideração que o senhor me merece, como é quer que eu acredite nesse "amor de mãe" celestial, do Amparo,  quando um desgraçado, aparentemente fiel ao culto mariano, em Vila Real transmontana,  apanha  com uma Sua imagem na cabeça e morre? Onde é que estava o tal amor nessa   altura? Eu sei que é tudo uma questão de fé e que esta é um dom de Deus. Porém...”   
Não imagina quanto me inspirou este meu interlocutor, que doravante considerarei um amigo, para  poder reafirmar o  ideário que  desde longa data professo sobre esta matéria. Vou apresenta-lo, em aditamento a um outro  blog  de  17-18/Agosto/15.
         Preso que estava à (má) educação com que  me lavaram o cérebro sobre a intervenção das forças divinas nos fenómenos meteorológicos, na rotação das galáxias, nas catástrofes naturais,  decidi desbravar os antros do  obscurantismo em que me atiraram desde a mais tenra idade. E vi não apenas a luz ao fundo do túnel, mas todo o túnel inundado de luz. Um momento decisivo foi quando tomei conhecimento  dos ignorantes bispos e cardeais da Inquisição Vaticana que condenaram  Galileu Galilei, (1564-1642), pelo “crime” de ter descoberto a teoria heliocêntrica, ou seja, que era a terra que girava em torno do sol e não o sol  à volta da terra, como erroneamente vem escrito no Velho Testamento. Aí toquei o fundo mais fundo da cisterna pútrida em que determinados “ministros” da mentira religiosa trazem encarcerado um Povo  crente e humilde.
Admira-se o meu amigo de que uma pesada imagem da Senhora matasse um pobre homem, em Guimarães, que ali estava ao serviço dela! Então vou dar-lhe outros casos: aquelas duas irmãs de caridade que se dirigiam de automóvel para Fátima, quando um enorme pedregulho salta do camião que ia à sua frente e esmaga-as mortalmente. Ou aquele autocarro que regressava de uma peregrinação, cheio de crentes, cai da Ponte Entre-Rios e afoga mais de 60 pessoas. Estremeci mais tarde quando, no cemitério de Castelo de Paiva, contemplava  a sepultura de várias vítimas que o pároco local me ia explicando. E muitos outros malogrados “mártires” em idênticas circunstâncias podia trazer  à colação.
         Mas não precisamos nós, madeirenses, de ir tão longe para nos confrontarmos com a realidade. Sabem quando é que se deu a maior catástrofe do século XX na Madeira? Em 20 de Fevereiro de 2010. Quem estava, então, de visita solene a esta ilha? A Imagem Peregrina de Fátima. Em vez de bênção, maldição! Não podia ela aguentar a voragem do furacão e poupar dezenas de vítimas mortais? Recordo-me  daquela reportagem televisiva, em que uma esquelética  velhinha, de contas na mão, balbuciava diante do macabro espectáculo de casas e pessoas arrastadas na torrente. “Ai, se não fosse Nossa Senhora estar aqui, a Madeira ia toda  por aí abaixo”!... Sem comentários.
         Mas quem foram os criminosos que incutiram na pobre gente esta relação de causa e efeito entre Alguém que viveu há dois mil anos e os pavorosos acidentes que ocorrem nos nossos dias, uns de ordem atmosférica, outros por manifesta falha humana?
         Eu já vos dou  a resposta com este caso sacrílego. Todos vimos a destruição diluviana ocorrida na freguesia do Monte. Vidas humanas  barbaramente ceifadas, casas devoradas pelas águas, crianças amortalhadas no berço do fatídico lamaçal. Eis senão quando, puro acaso,  aparece quase intacta a imagem da capela das Babosas, esta também destruída  pela aluvião. Acto contínuo, bispo e padre entronizam no altar a estátua, de gesso ou de madeira, e têm a suprema desvergonha de ultrajar a Mãe de Cristo, proclamando: ”Eis o milagre da Virgem, salva da desgraça”!  Oh, meus amigos, oh gente de fé e de razão, quem pode suportar tamanha blasfémia? Qual é a mãe, por mais cruel e desnaturada, que prefere salvar o seu “retrato”  e deixa ir ribeira abaixo filhos seus, crianças inocentes, desvalidas?!...   
         Vou tentar controlar a revolta interior que me levaria a meter um pedregulho daqueles que se desprenderam da montanha e tapar a boca de tais caluniadores sem escrúpulos. Tivesse eu bastante  procuração e sentá-los-ia no banco dos réus pelo crime da mais vil difamação.
Quando é que este Povo abre os olhos? Quando é que sairá do tempo da pedra lascada, do homem das cavernas que até nos relâmpagos via o olhar furibundo dos deuses? Quando… quando… aprende a respirar o ar puro da razão e da verdade?
A um conhecido meu, homem culto mas não crente, perguntei-lhe acerca da Imagem Peregrina e dos fogaréus de velas em certas procissões e respondeu-me: “Para mim, tudo isso não passa de paganismo e crassa idolatria”. E eu confirmo. Quando há anos estive na Cova da Iria, por ocasião do almoço anual do nosso batalhão regressado de Moçambique, abeirei-me das “Procissão do adeus” (era o dia 13 de Maio) e ao observar o mar de lenços brancos a acenar por entre os braços da multidão olhando, electrizada, para a Imagem Peregrina (há treze cópias da mesma imagem correndo mundo) emocionei-me e segredei a quem estava junto de mim: “Se Maria de Nazaré passasse por aqui a pé, trajando humildemente como uma mulher da aldeia, que ela de facto foi,  e aparecesse um anjo a  dizer “esta é que é a verdadeira Mãe de Jesus”, pois tenho a certeza de que ninguém lhe prestaria atenção e todos prefeririam olhar, cantar, acenar  em delírio para o andor da estátua de gesso feita por um homem chamado José Tedim”.  E ainda hoje tenho essa convicção.
Como desiludida e triste não estará Maria de Nazaré perante as ofensas (inconscientes, diga-se) que lhe atiram em rosto?...Sinto-lhe o amargo lamento:  “Esta gente não me conhece. Fazem de mim um objecto de culto vão! Um mercado de compra e venda”!
Ao meu amigo interpelante apenas desabafo: também vivi, durante muito tempo, afundado na cegueira da superstição vestida de devoção. Libertei-me.  Descobri que não devem assacar-se a entidades sobrenaturais aquilo que pertence à fenomenologia da natura ou à incúria dos mortais. Pelo que de Maria historicamente reconheço, gosto dela, mesmo que nunca me faça  “milagre” algum. Por isso eu digo-lhe: “Senhora, perdoai-lhes porque não sabem o que dizem, não sabem o que fazem”.

17.Set.2015
Martins Júnior