sábado, 19 de setembro de 2015

MAIS FESTAS E SENHORAS


 Temos todo o tempo do mundo para conversarmos sobre temas vários que, nesta altura, caem em catadupa no terreiro do nosso quotidiano. Por isso, hoje optei por continuar dentro do pavilhão ou sob o guarda-chuva da Senhora, pois que ainda palpitam um pouco por toda a Madeira as festas dedicadas à mesma Senhora, embora se apresente com outra maquilhagem --- Senhora da Piedade, Senhora do Rosário, Senhora do Livramento, o 13 de Outubro em Fátima…. E faço-o, motivado que fiquei com a troca de ideias de outros amigos que encontrei ontem e que hoje volto a cumprimentar.
         Queria eu ter a pena ágil de um Eça de Queirós ou o talento de Dante Allighieri, na sua “Divina Comédia”, para trazer ao pequeno ecrã uma narrativa com que sonho há muito tempo e costumo redizê-la aos meus companheiros de viagem que são as gentes da Ribeira Seca.
E lá vai ela, a narrativa:
Era uma vez…uma devotíssima senhora, toda ela cheirando ao véu das múltiplas e venerandas Senhoras. Ela adorava as novenas de Maio, as trezenas do Monte, as quarentenas do Parto, as “velas que dão luz e vão morrendo”, os eflúvios inebriantes dos incensos que turibulavam nas naves dos templos, sei lá, percorria todas as imagens e a todas tudo prometia: os colares de ouro que uma tia-avó, solteira rica e “Filha de Maria” lhe oferecia em dia de anos, alcatifas azuis para a imagem passar, diademas e coroas de ouro fino sobre a cabeça da Rainha dos céus e da terra. Guardava ciosamente no seu aparador um menu interminável de Senhoras.
         Ora, um dia a Senhora morreu. Em chegando lá cima, São Pedro fez um ângulo dorsal de 90º e instalou-a nos átrios eternos. Mas a nossa “Beatrizinha” --- era assim o seu diminutivo de carinho --- começou a ter saudades das Senhoras que tanto tinha cortejado em vida. Desce do seu cadeiral e. sem mais pergaminhos, interpela o Guardião Celestial:
--- Oh, meu rico São Pedro, faça-me esta graça.
--- Filha dilecta do Senhor, tu mereces tudo. Fala.
---  Sabe, tenho saudades tantas da Senhora do Guadalupe. Será que podia vê-la pessoalmente e agradecer-lhe uma tão grande graça que me fez lá em baixo.
--- É já, meu anjo. Fixa bem: tu vais por esta corredora, viras à esquerda, dás outra guinada à direita, entras noutra maravilhosa corredora, deparas-te com um largo em redondel e…pronto, lá verás a tua Senhora do Guadalupe.
E a  octogenária Beatrizinha avança, pressurosa e arfante. E alcança o seu desejo. Mas, diante da Senhora Imagem, lembra-se de outra Senhora, a do Livramento, que lhe livrou  da tropa um sobrinho  e a outro salvou-o das maldita minas lá das áfricas. Volta ao S.Pedro e reformula o pedido:
--- Vai perdoar-me, Santo Porteiro, mas eu também queria ver a Senhora do Livramento.
--- Não tem que pedir, vai já. Repara  bem: entras nesse corredor, viras à esquerda, mais uma guinada à direita, uma corredora e logo à frente um redondo e um altar. É lá mesmo.
E a nossa devotíssima anciã corre, corre. E lá está. Foi tal o ardor que se desfez em lágrimas de compunção, sem sequer olhar para a imagem. Mas… lá vem outro desejo. Volta a São Pedro:
--- Esqueci-me, Divino Pescador, que também a Senhora da Agonia deu-me força de chamar o sr. vigário para dar a Extrema-Unção à minha rica tia. Até pus ao pescoço da Senhora o melhor cordão que ela me dera no dia do Crisma.  
--- Não tem problema. Vais por essa corredora avante, depois à direita, a seguir à esquerda, outra corredora, um palco em círculo. Não tens que errar. Já chegaste.
Ainda mal refeita da emoção anterior, limpa as furtivas lágrimas da face, segue o esquema --- hoje, diríamos o GPS da fé --- e faz a sua oração. Mas, apurando a vista, nota que o colar de ouro estava ausente da Senhora. Tê-lo-á imaginado no cofre forte à guarda do Tesouro Celestial e, de regresso, mais um remorso: lembra-se da Senhora dos Aflitos. Corou de medo, mas a coragem foi maior e avança para a sagrada Sentinela:
--- Agora é que é a última vez que venho a seus pés, Guardador das Chaves Santas. Falta-me uma prece e um muito-obrigada  à Senhora … e lá compôs entre dentes… Dos Aflitos.
O Santo Ancião, com a paciência de um mártir, cofiou as barbas longas tisnadas do sal do mar da Galileia, curvou-se reverentemente e não teve outro trabalho senão repetir a mesma receita, que ela, a ancestral e  devotíssima romeira cumpriu escrupulosamente, até chegar à desejada meta. Desta vez, fixou melhor o rosto da Senhora, sentiu uma espécie de cardos da dúvida a percorrer-lhe a consciência, mas depressa as afastou com o mesmo à-vontade com que se afastam mosquitos. E voltou a rezar, a rezar, a agradecer. O pior é que começaram a persegui-la as memórias de outras Senhoras que constavam do seu cardápio terreno e com tal veemência como se  umas tivessem ciúmes das outras, reclamando cada qual a sua prioridade.
A nossa fidelíssima octogenária não achou lenitivo para esta angústia senão voltar à fonte e, diante de São Pedro, em turbilhão as intermináveis identificações e passaportes marianos que trazia no subconsciente, particularmente Nossa Senhora do Calhau, do Funchal, e Nossa Senhora dos Remédios, de Lamego.  
Que remédio! --- exclamou o Santo Guardião, sem poder conter o mais que justificado constrangimento. E rememorou-lhe o mesmo “código de estrada” em direcção à Senhora. Aí, a nossa beatíssima Beatrizinha perdeu um pouco da habitual compostura e atreveu-se:
--- Oh, santíssimo Proto-Papa, está a enganar-me. Pelo que me diz vou bater à mesma corredora, à mesma esquerda-direita, outra vez à mesma segunda corredora, ao mesmo redondel.
--- E à mesma Senhora --- rematou o paciente Cicerone.
--- Mas como pode ser isto? ---- enervou-se a nossa devota. Desculpe, mas o senhor está a matar a minha fé nas minhas sete, ou setenta vezes sete, Senhoras-
--- Minha filha, acalma-te, relaxa. Tem paciência e volta ao mesmo lugar e Ela, a única e verdadeira Senhora esclarecer-te-á, perdoará e salvará eternamente.
Não há palavras, nem exclamações nem interjeições que permitam ao narrador contar o que exactamente se passou depois. É que a nossa sereníssima pagadora de promessas entrou e fechou decididamente a porta. Entretanto, pelo buraco da fechadura, o narrador conseguiu captar o momento:
--- Senhora Mãe de Jesus, afinal quem és tu? Onde é que estão as outras sete ou setenta vezes sete Senhoras? Onde estão as minhas velas sem conta, os meus colares de ouro que lhes ofereci, os passos que eu dei, as peregrinações que me retalharam os pés, correndo de um Santuário para outro? Não posso, não aguento mais!
Eis o clímax de todo este drama: a Senhora desce os degraus do altar, ajuda a levantar a anciã debulhada em pranto e soluços, abraça-a, com aquele encanto que só uma mãe sabe consolar um filho. E diz-lhe:
--- Sou Eu Aquela que procuras.
--- E as outras onde é que as escondeste?
--- Minha filha, não há outras. Só há uma. Aquela com quem falas.
--- Mas lá em baixo havia tantas, tantas, que amei e a quem tudo dei.
--- Lá em baixo, enganaram-te. Esse foi o mundo do engano. Agora estás no mundo da Verdade. Enganaram-te, vestindo-me de tantas figurinos, de tantas alcunhas, de tanto ouro, de tantas ceras, que não havia necessidade. Aqui me tens: a Única, a Mãe do meu e do teu Jesus.
Com um beijo selaram a grande descoberta. Recuperada da abissal desilusão,  Beatrizinha  tornou-se Beatriz, adulta, esclarecida, vigorosa. E apertou Maria, a Grande Mulher e Senhora, com este brado:
--- Manda alguém lá baixo, te imploro. Um mensageiro, anjo ou arcanjo, avisar os pobres mortais, dizer-lhes que não mais se iludam, não mais te ofendam.
--- Eles têm as Escrituras, eles têm a Razão, eles têm o Amor que lhes desvendarão o esplendor da Verdade e saberão que a Senhora é só uma: MARIA E MAIS NENHUMA!
………………
Ninguém veio.
 Mas o narrador “viu”.  E aqui dá o seu testemunho para quem quiser reflectir, para quem quiser contestar, para quem quiser --- concordando ou discordando --- ajudar  a fazer luz neste mundo obscuro, tolhido pelo medo de encontrar a Verdade.
E agora sou eu que concluo: muito embuste, muita patranha, muito lucro vil se enxameia a crença, a coberto de devocionismos fraudulentos ou, pelo menos, desviantes. E termino, sentindo bater aos meus ouvidos aquela belíssima e dolorosa canção, sucessivamente interpretada por  Joan Baez e Dalida:
Ils ont changé ma chanson, ma!
Nem duvido: eles, os tecnocratas da religião, os manipuladores da fé mudaram o Poema da Mãe, corromperam a mentalidade e a sensibilidade do Povo crente!
19.Set.2015
Martins Júnior