sexta-feira, 25 de setembro de 2015

PORQUÊ 14 CONTRA 1 ?

Com o devido respeito cívico para com todos e com todos os partidos e coligações concorrentes às eleições de 4 de Outubro, apraz-me reproduzir substancialmente aqui, em fim de dia, os considerandos que o jornal online “Funchal-Notícias” fez o favor de publicar hoje de manhã, em artigo que escrevi no dia 22, sob o título “ Não há crise…de partidos”. 

                         
  Eles aí estão, nascidos como cogumelos, por geração espontânea, de quantas cores e tamanhos tantos, não se distinguindo, a olho nu, os saudáveis dos venenosos. É tal a sementeira que mais se parece àquelas aldeias, paupérrimas de recursos mas ricas no índice de natalidade. São assim as crises: barrigas de aluguer do mais vulgar de Lineu que se  apresenta como salvador de pátrias.
         No entanto, não escapará, por certo, ao observador atento um traço identitário comum., qual seja, o de inscrever no mastro alto das respectivas bandeiras as mesmas palavras de ordem de todos os adversários emergentes: o novo hospital, os transportes marítimos, os dois meses de carência no reembolso das viagens aéreas, as crianças  e os velhinhos,  os IMI’s, os manuais escolares, as pensões… e por aí fora, tudo enfiado numa placa de zinco, como se fossem impressas na mesma tipografia. E quando se esgotam os “spots”do mercado, entra-se pela nuvem dos delírios, fazendo juras de alcançar  paraísos irreais, de todo inatingíveis. E, nas mais das vezes, contraditórios.  Estou a lembrar-me daquele eleito para vogal de Junta de Freguesia. (leiam-no nas entrelinhas) o qual, ao saber que só teria direito ao pagamento de senha de presença quinzenal, respondeu: “Desisto, isso nem dá para a sola das botas”. E agora --- “suave milagre” ! --- aparece como cabeça-de-lista de um partido recém-chegado à Madeira, cujo programa solenemente decreta a “redução imediata do ordenado dos deputados”.   É caso para exclamar: AhAh! 
         Mas há uma outra marca distintiva em quase todos os jovens partidos (e dos velhos dogmáticos também)  tão impressiva e descarada que até um cego a detecta: meter grãos de areia na roda dianteira  dos dois (aliás, de um) dos corredores  rivais que encabeçam o pelotão. Descubram-me um desses 13 ou 14 partidos que não faça do PS a ementa apetecida da sua cozinha picante! Achei uma piada extrema quando, da varanda do Kremlin da sua arrogância, o fogoso líder, na ânsia de melhor servir o prato, ensandwichou o PS no meio da Coligação, ao igualá-los  da mesma feita, com a já estafada equação: “PSD-PS-CDS, farinha do mesmo saco”. Isto, após a declaração inequívoca de António Costa de votar contra o eventual Programa e Orçamento da Coligação. É obra! Valha-lhe a inflexão de discurso feita hoje mesmo: ”Estamos dispostos a fazer contactos com o PS”.
         De não menos pontiaguda intuição subterrânea é a verdura daqueles que tendo recebido o apoio do PS nas últimas autárquicas --- o terro de que nasceram e cresceram ---  agora agarram,  sempre que podem,  o primeiro calhau  para atirar em rosto dos “ex-compagnons-de-route”, inclusive contra um dos seus  beneméritos “padrinhos”, o CDS. Coisas da tenra idade que, cedo ou tarde, farão ricochete irreversível! Mesmo na rampa escorregadia da política, nem sempre vale tudo.
         Não está em causa o legítimo direito de participação política. E, da minha parte, não  esqueço que, em 1976,  fui convidado e alinhei num pequeno partido, cuja nomenclatura está hoje extinta. Portanto, sei do que falo. E até no parlamento regional nunca ninguém ouviu da minha boca expressões depreciativas contra qualquer  partido da oposição, precisamente porque nunca perdi de vista o adversário comum, o PPD/PSD.     Por isso,  o que mais decepciona é a ingenuidade (à falta de melhor designação) de certos candidatos  publicamente conhecidos que, perdendo a visibilidade dos cenários no horizonte de pouco mais de uma semana e sabendo que nunca elegerão um único deputado (serão precisos 15.000 votos) estão levando nos braços até ao pódio do poder uma direita ultraliberal, infiel à palavra dada e  para a qual as pessoas valem menos que os números da “economia que mata”.  Lamentavelmente o confesso, mas tenho a convicção de que, se a eleição fosse apenas entre a Coligação e o PS, certos partidos, auto-proclamados puritanos defensores do Povo, votariam PSD/CDS. Aliás, foi a puritana esquerda que em 2011, chumbando o PEC4, sentou Coelho e Portas no cadeirão de São Bento e abriu  o ciclo da abjurada austeridade.Com a direita no poder, mais facilmente voltarão as manifestações, as cavalgadas na escadaria da Assembleia da República, com os mesmos líderes partidários a vestir a camisola do protesto, esquecendo-se de que o país precisa mais de bons governantes do que de profissionais protestantes.  
         É o velho princípio da terra queimada. Quem nada tem a ganhar, nada tem a perder --- assim pensam. Mas, se assim acontecesse, ao fim da picada, todos perderíamos. Todos!
E sai a pergunta final: Será justo “14 contra 1”?

Martins Júnior  
25.Set.2015 
              
N.B. – Sem prejuízo da consideração e, nalguns casos, da velha amizade que me liga aos elementos da JPP, estranhei a ligeireza de publicarem no seu facebook gravuras de um encontro casual em campanha eleitoral na Ribeira Seca, não obstante a ressalva que, cordial e ironicamente, lhes dirigi. na altura: “Olhem que eu não sou sportinguista”. Mais uma vez se confirma: Em política, não vale tudo.