segunda-feira, 21 de setembro de 2015

VINDIMANDO NA HORTA DA DIOCESE --- o relatório de Roma



“Até ao lavar dos cestos é vindima”. Por isso, antes que termine a vindima de  outono e não obstante a multiplicidade de acontecimentos que nos batem à porta, vou hoje recolher alguns bagos de uva das latadas da diocese, dado que ainda estamos na repisa desse notável e notando marco da história da Igreja portuguesa, neste caso, a da Madeira.
Trata-se da tal visita “Ad limina apostolorum”, ou seja, em termos concretos, da prestação de contas ao Papa de Roma sobre o Estado da Fé e respectiva vivência no território de cada região, em Portugal, acontecimento cíclico que se realiza de cinco em cinco anos. É interessantíssima, porque envolta numa aura  de misticismo, a forma como a comunicação social afecta à religião se lhe refere: ”Contacto com as origens e  fontes apostólicas, nos túmulos e catedrais de Pedro e Paulo, Assembleia do colégio apostólico em redor do sucessor apostólico de Pedro, ardor apostólico para reavivar a chama da fé” e demais sinónimos de fideísmo e apostolicidade.
Mas a verdade é que de nada sabe o Povo, digamos, os súbditos desconhecem por completo a radiografia que deles levou o chefe diocesano  ao Chefe universal e Juiz da Cristandade. Já por aqui deambulei, antes do início da grande viagem que fez o episcopado a Roma.  Hoje, proponho e reforço a necessária (assim deveria sê-lo)  interpelação a quem de direito: Que respostas, sugestões, decisões, talvez sérios avisos mereceu o Relatório apresentado em Roma entre 6 e 12 de Setembro?
Ninguém sabe. E o mais significativo é que poucos ou nenhuns querem sabê-lo. E com isto se toma nas mãos o barómetro da vivência cristã, cultural, social, parte integrante da nossa história actual. Não há nada mais temível que a indiferença. É o sintoma infalível de um corpo inanimado (mesmo que ricamente perfumado e embalsamado) neste caso, de uma cristandade desencarnada,  de um “faz-de-conta”, pois aí o que conta é a fachada do prédio, o repicar dos sinos, as opas vermelhas embandeirando as ruas e o pálio de oito varas arvorado ao vento.
É um dado inquestionável que o barómetro da crença não marca a temperatura da espiritualidade. A Fé não é mensurável. Mas… é caso para  perguntar: Que foram  então fazer ao Vaticano os nossos líderes religiosos? Se os próprios metem no congelador da memória particular o que a todos diz respeito é sinal de que lá metem também a nossa memória colectiva.  Com que propostas e com que ânimo regressou o responsável da diocese sobre o presente e o futuro da catolicidade madeirense? Neste capítulo remeto os meus interlocutores para o eloquente texto, histórico, que o  Padre José Luis Rodrigues publicou, precisamente no dia em que começou a magna assembleia em Roma, domingo, 6 de Setembro. Lá estão as rubricas, os artigos e os parágrafos para um Relatório, digno deste nome, a apresentar em Roma. Tê-lo-á sido, de verdade? Ou tudo não passou de mais um roteiro turístico pago pelos contribuintes das igrejas locais?!...
Estou a recordar-me do veterano missionário redentorista, Le Père Henri Le Boursicaud, que empreendeu, aos 75 anos,  a corajosa viagem  entre Paris e Roma, no ano de 1995,   “percorrendo 1.500 Km,  a pé, ao longo de estradas nacionais de França e Itália, 97 dias a caminhar ao calor, à chuva, ao vento, comendo e dormindo mal”.  E para quê?... “Para interpelar a Igreja Institucional”, assim define claramente o livro da viagem,  já na sua 8ª edição. Foi com um misto de emoção e militância que muitos de nós ouvimos contar, na primeira pessoa, o relato desta  autêntica viagem missionária, quando o então octogenário (hoje com 95 anos) celebrou no templo da Ribeira Seca e em vária igrejas da Madeira.
Interpelar a Igreja Institucional de Roma!
E o nosso prelado, terá ele ido interpelar ou --- o mais previsível --- terá sido  ele interpelado pelo Papa Francisco acerca da Igreja institucional desta diocese?!...Respostas que os cristãos,  atentos e responsáveis  construtores  da sua Igreja,  têm o direito de saber. Onde está o Laicado madeirense, os movimentos associativos, as ordens e congregações religiosas, o Conselho Presbiteral, o Cabido dos cónegos?  Ninguém esboça a mínima apetência para conhecer o quadro geo-religioso --- ao menos aquele que foi apresentado em Roma --- acerca desta nossa Ilha de Santa Maria?
É uma proposta que aqui fica. Ainda vamos a tempo, porque “até ao lavar dos cestos é vindima”. E alguém terá de exigi-lo! É um direito. Para estímulo do dono da vinha, ouso alvitrar o seguinte:  quem mandou elaborar “500 anos da diocese” bem pode mandar publicar 5 anos do seu episcopado.
21.Set.2015
Martins Júnior