sábado, 17 de outubro de 2015

AUTO-GOLOS SEM EMENDA!




Ora, vejam lá  no que se me deu hoje a falta de ar fresco. Que o ambiente anda  pesado,  ninguém duvida. Um “capacete” à moda da ilha, carregado de negrume com aves agoirentas a encher-nos as orelhas e a cabeça de ameaças, traições e neuroses que povoam a madrugada do amanhã político. Nisso são hábeis e disso se alimentam os comentadores, uns --- velhos do Restelo,  outros --- caloiros movediços que vão repetindo em altos decibéis os  mesmos chavões que ouvem, aqui e ali, pelo buraco da fechadura da intriga partidária. Por isso,  hoje resolvi “dar o fora” e estender-me ao comprido na relva, como o “Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro.
         Mas acho que me enganei. Ao pisar o relvado, vi-me metido num caldeirão infernal, com as orelhas a chiar e a cabeça estonteada, desejando sair dali, antes mesmo de entrar.  Julgareis vós que por causa dos milhares e milhões de espectadores apinhados nos anéis dos rectângulos. Nada disso. Precisamente ao contrário. O meu fastio, quase náusea, veio de fora do estádio. Veio da  sede dos clubes, dos gabinetes dos directórios desportivos, enfim, veio daqueles que nem tocam no disputado esférico que enlouquece as multidões.
         Sei que corro o risco do “bota-de-elástico”,  mas não me contenho perante a grosseria, direi mesmo, a mais desmiolada paranóia, de certos dirigentes maiores do nosso futebol  que parece terem engolido as trombas de um elefante e borrifam (apetecia-me usar outro termo) cá para fora   dislates, barbaridades, roupa suja, bisbilhotices  para-porno, enfim toda a cloaca de que estão cheios aqueles dentes. A mais “preciosa”, porque “origiginalissíssima”, de cair para o chão, foi aquela que me saltou à vista  nos escaparates da tabacaria onde compro diariamente os meus jornais. Ei-la: “O clube X (…) sofre de um problema teológico”. Fiquei de bruços. Mas que raio de crise de fé  teria esse clube? O dirigente, jovem melro verde com gorgulho de peru velho, explica: “É que ele deve dinheiro ao Espírito Santo e quer que seja Jesus a pagar”. Onde isto já vai! É o cúmulo da senilidade pueril ( o contrate é propositado), da mais esfarrapada idiotice.
         Esta ridícula batraquiomaquia (combate entre sapos) provém única e exclusivamente deste monumental cambalhota de papéis: os presidentes dos clubes querem sobrepor-se aos profissionais da bola, alimentam a prosápia de serem eles os protagonistas em cena. Faço ideia do desconforto com que os atletas entram em campo,  sabendo que os presidentes em guerra querem substituir-se a eles próprios, os jogadores, que são os criadores das vitórias e as vítimas das derrotas. Mas, que remédio! Têm de calar-se,  porque nas cúpulas desportivas a ditadura é palavra de ordem. Desde o empresário ao jogador, desde o médico ao treinador, desde o presidente ao roupeiro. Todos comem à mesa do orçamento do clube, enfim, dos sócios que assistem como marionetes a este desfile de bobos emproados. Do que conheço, fico com a convicção de que há presidentes que nunca foram nada na vida e empoleiram-se na gaiola mais alta da quinta para mostrarem ser alguém. Lembro-me do malogrado António Gonçalves que aproveitou a passagem pelo SCP para exibir as bigodaças que lhe torciam o nariz. Na Madeira, então a aliança entre futebol e governo nunca teve vergonha, não se descortinando onde acabava o presidente do clube e começava o político e/ou  deputado.
         Partindo da evidência  que o futebol  é  como um íman de emoções e de paixões --- recordo-me também do actor Artur Semedo que dizia “a minha religião é o Benfica” --- deveriam os seus líderes assumir o seu lugar de pedagogos e aglutinadores  dos melhores princípios, indispensáveis a  uma sociedade, onde o desporto é valência estruturante.  Mas, pelos vistos, não têm emenda.
         Por outro lado, ao constatar o antro de corrupção que são as redes de tráfico do futebol --- veja-se, por todos, a caso Blatter, a nível internacional --- nem  apetite chega para ligar a TV nas maratonas corrompidas do futebol profissional. É melhor voltar à arena política. Pelo menos, aqui  há um juiz soberano que põe e dispõe: o Povo!

17.Out.15

Martins Júnior