sexta-feira, 9 de outubro de 2015

ESTUFAS DE MITOS MILAGRES E ROSÁRIOS


Quem se der ao gosto de viajar na redoma do sonho há-de pairar, extasiado, no melhor dos mundos e daí evolar-se, desfiar-se e multiplicar-se em miríades de estrelas, mais numerosas e esotéricas que as que compõem as galáxias supralunares. Esse extenso  mundo, sem linha de horizonte, é a crença religiosa. Peço aos meus comensais nesta mesa do dia ímpar a paciência de não mudarem de canal, porque não é de teses teológicas que componho hoje  a minha ementa. Pelo contrário. É da imaginação criativa, de uma certa consciência onírica,  que vos dedico estas (que desejaria breves) linhas, mereçam ou não o vosso consenso.
Porque hoje é o dia 9 de Outubro e é do fundo côncavo do vale de Machico que vos escrevo. É o tradicional Dia do Senhor dos Milagres.
Diga-se, desde logo, que esta á uma comemoração doméstica, nada e criada nas paredes centenares deste vale. Em nenhum outro lugar da cristandade tem o “9 de Outubro” semelhante designação. É também uma festa recente, com início em 1803. Em bom rigor, nem deveria falar-se de “festa”, mas sim de tragédia, pois as barragens celestes abalaram-se num ápice e arrastaram para o mar casas, terras, vidas, cerca de 600 a 1000 pessoas. As zonas mais “castigadas” foram Machico e a baixa do Funchal, com a avalanche voraz caída dos altos da freguesia do Monte, em proporções incomparavelmente superiores às do 20 de Fevereiro de 2010.
Depois, vem a lírica composição narrativa de uma galera americana --- tinha, logo,  de ser americana --- que achou intacta, no alto mar, o cruzeiro que havia na capelinha da Misericórdia, depois da “Ordem de Cristo” do Infante e, finalmente, cognominada de Capela dos Milagres. Esta a versão que a oralidade popular foi passando de geração em geração.
            E aqui começa a liberdade de sonhar. Um amigo meu telefona-me, espevitado e de dedo em riste, “então, não ouviu na RDP aquela versão de que a imagem tinha sido recolhida por uma barca, de nome “Áquila”, a qual se encontra no litoral do Funchal, estou de cabelos em pé…e você não diz nada”.  Posta a água na fervura, esclareci que não tinha ouvido o noticiário, ao que ele, conhecedor da matéria,  insiste: ”mas foi alguém aí de Machico, com responsabilidade religiosa”, etc.,etc.. A “Áquila” era a embarcação que fazia o transbordo dos passageiros do hidroavião que  amarava na baía do Funchal, na década de 50 do século passado. Bom, o caso é de “lana caprina”, mas se a versão pegar, por mais anacrónica que seja, deixa de ser a galera americana para ser a barcaça inglesa a salvadora da estátua. Assim se misturam lendas sobre lendas, qual delas a mais engenhosa. Basta meter crenças religiosas e mitos pelo meio.
            Outro caso não menos interessante ocorreu anteontem, 7 de Outubro, dia de Nossa Senhora do Rosário. Roça as raias do inverosímil, do absurdo mesmo, o que se conta acerca deste dia. Foi em 7 de Outubro de 1571 que se deu a trágica batalha naval de Lepanto entre a esquadra da Liga Santa e os turcos otomanos que se tinham apoderado da ilha de Chipre pertencente, então, à República de Veneza Oriental e, daí, avançariam sobre Veneza Ocidental, seguindo-se-lhe os territórios do Vaticano. O domínio do Mediterrâneo era a ponte estratégica do comércio de então, encarniçadamente disputado por europeus e muçulmanos. Veneza pede auxílio ao Papa que congrega os diversos reinos dos Estados Papais, Reino de Espanha, Cavaleiros de Malta, com o apoio financeiro da Casa dos Habsburgos e lançam-se, com 108 naus, no embate contra a armada turca, numericamente superior, composta por 186 naus.  É sangrento o relato que fazem dessa guerra os cronistas da época, cujas descrições de esmagamento de homens, crianças, mulheres, em terra e violentos duelos no mar ao aproximar das barcas, os quais pouco diferem das crueldades que hoje “vemos, ouvimos e lemos” nos Estados Islâmicos. Da parte dos turcos caíram 30 a 40 mil mortos, 8 a 10 mil prisioneiros, a cabeça do almirante otomano   Ali-Pachá cortada e posta na ponta de uma lança  e, para cúmulo do pavor, uma “Senhora de Aspecto Majestoso e Ameaçador” no mastro alto de uma das naus cristãos, que pôs os “inimigos” em fuga, etc.,etc..
            A surpresa vem a seguir. Foi nessa altura que o Papa Pio V mandou espalhar por toda a Cristandade a devoção do rosário a Nossa Senhora. E eis que, após tão tremendo massacre, dispêndio de vultuosos investimentos financeiros, desgaste das populações, a batalha saldou-se com a vitória da Santa União contra o Império otomano. E também para toda a cristandade proclamou-se o seguinte édito: ”Non virtus, non armas, non duces, sed Maria Rosarii Vitores nos fecit” --- Nem as tropas, nem as armas, nem  os comandantes, mas  somente foi a  Virgem Maria do Rosário que nos deu a vitória”. E assim começou a festa de Nossa Senhora das Vitórias, assim fizeram caminho os arraiais do Rosário, como o da Madeira, em São Vicente, este ano transferido para o próximo domingo.
            Como foi possível associar a Senhora à cobiça capitalista do reino da Veneza de então e à disputa dos monopólios comerciais no Mar Mediterrâneo !
Que blasfémia inaudita dizer àquelas pobres velhotas da província que cada conta do seu terço, rezado todas as noites, funcionava como um granada de mão (um míssil, em linguagem actual) para matar vítimas indefesas, seres humanos e, quase sempre, os mais frágeis…
Quem julgará os criminosos sacrílegos?!
            Sem mais comentários, até onde nos levará a escaldante criatividade  pseudo-religiosa? Michel de Montaigne, já no século XVI, classificara a nossa imaginação como “La folle de la maison” --- a louca da casa. E não há chão mais fértil para tais derivas como o devocionismo febril da crença desenfreada.
            Não espero consenso geral para estas propostas de aprofundamento, feitas com todo o senso, para mim, e não menos coragem intelectual. Para serenar-me nesta dolorosa incursão, encosto-me a uma das árvores da nossa ribeira de Machico, neste 9 de Outubro, e imagino ver, na outra margem,  o Cristo em pessoa olhando as ondas revoltas da enxurrada: à sua frente rolam, lado a lado, uma cruz de madeira e uma criança, um pai, uma mãe devoradas pela torrente. Quem irá Cristo salvar primeiro?  A cruz de madeira (que depressa se substitui) ou a criança, aquele pai, aquela mãe, aquelas vidas sem retorno?... Da resposta a esta pergunta depende toda a interpretação do Senhor dos Milagres, das Senhoras do Rosário, enfim, da limpeza de olhar com que lemos o nosso código ideo-espiritual.
 9.Out.2015

Martins Júnior