quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"TODOS ME QUEREM E EU QUERO O MEU BEM…"



        
       Não é cantiga de amor a que hoje me traz ao vosso convívio. Longe disso. Nem será também de escárnio e maldizer. Talvez de mero lazer, à mistura com algum piripiri, sobre o cenário de coisas sérias que desfilam diante dos nossos olhos e a que Camões classificaria de “Desconcerto do Mundo”. Tivera eu o humor cáustico de Bocage ou o da sátira repentista do seu companheiro de cela no Limoeiro, o nosso “Camões Pequeno”,  para pincelar as caricaturas da comédia humana a que todos assistimos  nestes  dias.
         Coleccionador que sou do “antes” e do “depois” dos acontecimentos, folgo-me de um gozo largo, até à exaustão,,  quando comparo cenas, trejeitos e esgares furiosos de ontem com a macieza lânguida e murcha, roçando o auto-vexame, de hoje. Estais, como eu,  a ver o filme do fogo cruzado,  implacável fogo posto em todo o  cerco da floresta, com o pobre António a meio, costas e cara queimadas da artilharia sem tréguas da direita e da esquerda.  Quem não se lembra das rajadas-em-duplicado despejadas dos dois canhões-sem recuo,  Coelho e  Portas --- “traidor ao próprio partido, coveiro das finanças públicas ao serviço de Sócrates, bicho-papão dos portugueses “ --- e outros mimos que tais?!... E da parte dos vizinhos de Moscovo, quem poderá esquecer as imprecações de juba grisalha  com que grelhavam o já assado Costa e faziam  do PS o recheio de uma malfadada sandwich entre as duas empadas, uma o PSD, outra o CDS?!...
Na noite do 4 de Outubro, o foguetório de todos contra  --- diziam --- o  único perdido náufrago,  deserdado das urnas, condenado às galés e à imediata demissão, o pobre  Costa. E eis que, acordados da ressaca de domingo, voltam a si, fazem as contas e --- milagre! ---- “Aqui d’El Rei, nós é  que estamos  entalados”.  Afinal, o bolo não dava para nenhum dos três, afinal o filho que “pariram” tinha três donos, três ou quatro paternidades. Era de todos e não era de ninguém!
         O deserdado, o “energúmeno” Costa, consciente da leitura exacta dos resultados,  reconduziu-se à sua cela, dizendo apenas que não se demitiria. E foi aqui que a exemplar porcina torceu a vergonhosa extremidade e fez a inversão de marcha: deixou a rampa triunfal para São Bento e voltou ao chão do Rato. E, de cócoras, viu que não lhe bastava uma só muleta, a do Paulinho. Carecia de uma outra, a perna esquerda, a do Costa. Vai daí, Coelho estende a passadeira vermelha (“credo, abrenuntio”) para o Rato entrar.  E conversam, conversam… Insatisfeito com a ementa, vai de novo o Coelho, com as pernas húmidas, sobe as escadas do Rato e entrega uma cunha “facilitadora”, de  vinte ofertas de casamento.  Devo dizer que jamais me passará da memória  aquela cena verdadeiramente patética: Coelho, o “antes” gesticulador  de facécias divertidas, agora de trombas, olhar vago e semi-perdido,  a queixar-se que dera todos os anéis de promessa e saía de mãos a abanar.  E o outro, o “antes” adamastorzinho do Caldas, o prof. das piruetas oratórias, agora ali, encolhido como um embrulho de esquina, sempre lá arrastou os pés, agarrou-se ao bordão do microfone e, a avaliar pelos  desconexos fonemas produzidos, deve ter balbuciado: “Coitado de mim que agora nem para muleta do Pedro  sirvo” … Moral do primeiro capítulo:  “Só tu, Costa, é que nos podes deitar a mão para não cairmos da cadeira como caíu o nosso patrono Salazar”!
         Quanto ao Palacete encarnado, o inamovível senhor da instituição esqueceu todas as juras condenatórias, desfez-se em pranto de encantamento e foi o primeiro a convidar a antiga presa para sentar-se à sua mesa. “Benvindo, Irmão. Em boa hora chegaste. É de ti que precisamos  para alcançar o eléctrico de São Bento. Chegou, enfim, a nossa hora”.  E, como se uma prova de arrependimento não bastasse, voltou à carga, dois dias depois, com reiterados votos de conversão ao  Costa, o “execrável” recheio ensandwichado da dupla PSD/CDS.
         As voltas que o mundo dá… Costa, de mal-amado a bem-amado!
         No terreiro do Bloco, os olhos ternos  cor-de-azeitona  de Catarina,  pela sua fina sensibilidade  de mulher, aliada a uma subtil inteligência, ganharam, já antes do 4 de Outubro,  uma leitura mais lógica e menos sectária:  A UNIDADE É QUE FAZ A FORÇA. E franqueou de imediato janelas abertas de novas oportunidades para o país.
         Bom, a paródia ainda vai no adro, porque falta entrar o “Totalmente Insensível” Cavaco, como ele próprio fez questão de cognominar-se, em fim de prazo. Mas os primeiros capítulos já dão para rir. Quando digo “rir”, estou a pensar naquele aforismo, velho de barbas, como o Diógenes da velha Grécia:”Ridendo, castigo mores” --- rindo, estou a avaliar e  a criticar o que acontece.  Por hoje, é também este o meu propósito, não na matéria de fundo, mas na sua forma. Porque desconhece-se ainda o que está para vir.
         Seja o que for e como for, não deixa de ser divertido e, ao mesmo tempo, instrutivo, este desconcerto do mundo: o que ontem era, hoje pode deixar de ser. Não é por acaso que a revista “Visão”  traz em manchete de capa este mesmo jogo de contrastes, sobrepondo  à gravura de Costa, o sugestivo título: “ O  elo mais fraco,  O  elo mais forte”,  eliminando a vermelho  o desqualificativo “fraco” e  mantendo o qualificativo “forte”. No final de tudo isto,  vejo passar, empoleirado em cima do carro de campanha do PS,  o quarteto PSD/CDS/PCP/BE, todos  a cantar desaforadamente   aquela cantiga que os megafones  da propaganda  adaptaram de uma outra toada popular:
                                      Todos me querem
                                      E eu quero alguém
                                      Quero o  PS
                                      Não quero mais ninguém

No entanto, não esqueço uma outra frase profética que vem dos confins do tempo, inscrita no LIVRO (Salmos,  118, 22-23): “A pedra que os construtores rejeitaram  tornou-se a pedra angular do prédio”,  a sua pedra de alicerce.
15.Out.15.
         Martins Júnior


N.B. Para evitar equívocos, devo esclarecer que já há algum tempo  deixei aqui a minha declaração de voto, quando escrevi  que  a melhor garantia de estabilidade política do país seria uma governação tripartida PS/BE/CDU.