domingo, 15 de novembro de 2015

CAVACO SILVA À DESCOBERTA DE PÓLVORA NA MADEIRA


Os últimos acontecimentos ocorridos em Paris vieram demonstrar que o mundo vive em cima de um vulcão que pode acordar quando e onde menos se espera. Nem adianta adjectivar aquilo que substantivamente pertence ao reino da selva em plena cidade. Entretanto, como tive oportunidade de dizê-lo anteontem, as erupções, parecendo espontâneas, não nascem por geração espontânea. Há um vasto conglomerado de micro-génesis que vai crescendo silenciosamente até alcançar os paroxismos do macro-trágico.  Apontei, a título exemplar,  a sôfrega ambição dos mercados e o domínio, a qualquer preço, da “economia que mata”. Mas há outros micro-climas de teor político-administrativo que também minam a sociedade e de tal forma que daí explodem incontroláveis ataques de nervos, senão mesmo  perigosos focos de desestabilização.
Falo desses epifenómenos criados dentro da própria casa, crispações na política doméstica de efeitos imprevisíveis. E falando destes, sem querer perder muito tempo, refiro-me ao assunto de amanhã: a visita do  Presidente da República à Madeira.  Muitas têm sido as críticas, a nível nacional, contra a veleidade irresponsável que o Primeiro Magistrado da nação vem exibir na nossa ilha, a pretexto de um encontro de economistas ou inauguração de empresas, como se o país nesta altura sem-governo fosse um episódio irrelevante para quem assumiu compromissos constitucionais da maior repercussão na vida de um Povo. Quando tinha e tem à sua frente evidências normativas para  pôr o país a funcionar com a constituição de um novo governo,  o nosso Chefe anda à cata de uma vereda, de um buraco supostamente alternativo ou, pior ainda, dá-lhe para voar nas nuvens, lembrando-nos o imbecil e sádico Bush quando, no ataque bombista às Torres Gémeas, meteu-se num helicóptero a sobrevoar a cidade em chamas. Era inimaginável chegar ao século XXI e assistir ao ridículo de um Presidente da República escarnecido na comunicação social, como que derretido com as cagarras das Selvagens e o sorriso das vacas açorianas…
         Por tudo isto, merecia que se escrevesse na pista do aeroporto uma tarja de peso: “Nesta altura, Cavaco é ‘Persona non grata’ na nossa ilha”. Além das justificadas insinuações do mais descarado apadrinhamento da Direita, esta atitude de um homem que a si próprio classificou como “totalmente insensível”, abre o caminho a um acervo de proposições, as mais delirantes, como seja a Revisão da Constituição para haver já, já, novas eleições… ou tantas quantas até que venham à tona de água os malogrados náufragos,  seus filhos adoptivos. Pelas portas, esta ressaca de Pedro só podia ter vindo dos olhinhos lânguidos de Paulo.
Como cidadão, tenho o direito e o dever de exigir ao Presidente de todos os portugueses que ocupe o seu lugar. E que não use a Madeira como pretexto  para a fuga às suas actuais e insubstituíveis responsabilidades na condução pacífica do país, evitando perturbações ou sobressaltos, a todos os títulos, detestáveis. Tanto mais que o senhor, do alto dos seus quase dois metros físicos e outros tantos de  desadaptação social e intelectual, proclamava que “já tinha todos os cenários na mão e sabia bem o que iria fazer”.
Em todo este confuso labirinto, só lhe acho um presumível mérito: o de vir à Madeira descobrir a pólvora! Onde estará o paiol?--- perguntarão os meus amigos. E eu decifro:. Basta percorrer os dois atalhos que nestes dias têm ficado patentes aos olhos de toda a gente:
O primeiro: o PR pode optar constitucionalmente  por nomear um governo de iniciativa presidencial. O segundo: leiam a capa do jornal “Económico” de quinta-feira passada, dia 11: “Cavaco tem margem para um governo de iniciativa presidencial, mesmo que fique em gestão até  novas eleições”. Autor da proposta: Alberto João Jardim.
Como se usa dizer, entre os dois casos qualquer semelhança é pura coincidência.
Sem mais comentários: Será que o “Sr. Silva” vem convidar o extinto inquilino da Quinta para vigia deste país, encarregando-o de formar o tal governo de iniciativa presidencial?  
No delírio em que esta gente vegeta, no estertor da agonia até Janeiro, nada me surpreende. Esperemos para ver.  Talvez  Cavaco tenha descoberto a pólvora na ilha. Pois o que Portugal mais preciso nesta hora é mesmo  da pólvora, made in Madeira…
A tanto chega o oportunismo  rasteiro e caduco de quem ainda sonha com os moinhos de vento de trinta e seis anos de poder!
Basta de invencibilidades.

15.Nov.15
Martins Júnior