quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NÓS, JIHADISTAS?...


Por mais que eu queira passar “além do Bojador”, não consigo. E duvido que alguém consiga. Mais concretamente, é  impossível descansar a cabeça ou, sequer, virá-la para a outra margem sem olhar o rio de sangue e lágrimas que corre diante dos nossos olhos. Porque os corpos estilhaçados e os estampidos das   Kalachnikov, moram aqui ao lado, entram pelas portas e janelas do quarto onde dormimos.
Longe de mim empurrar para cima de nós, aqui distantes,  os tornados depressivos em que se afogam os parisienses durante estes dias que são sempre noite escura, sobretudo para os familiares das vítimas. Tão-pouco repetirei análises exaustivas de comentadores especialistas que, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, tentam decifrar-nos o indecifrável. Tentarei apenas colocar quatro ou cinco peças, as mais impressivas,  no xadrez intricado dos trágicos acontecimentos, afim de alcançarmos a síntese essencial das conclusões.
Onde estarão as raízes  do terrorismo islâmico ou, mais precisamente da formação do Daesh, o  auto-proclamado EI, Estado Islâmico? E se alguém vier fazer-nos a pergunta com que titulei este nosso diálogo vespertino dos dias ímpares, que resposta daremos? Nós, jihadistas?
Telegraficamente:
1 – Á cabeça desta e de todas as chacinas do nosso tempo (de todos os tempos!) está o dinheiro. A tesouraria. A máquina registadora. A conta bancária. Venham eles do petróleo, do armamento, da droga, do comércio de carne humana. O alibi da religião é igual  ao das caravelas quinhentistas que supostamente iam alargar “A Fé e o Império”, mas de lá só pretendiam domínio, território, ouro e especiarias…
2 – Da avidez do dinheiro, resulta a exclusão. O “apartheid”. A segregação. O gueto. O desemprego. Os bairros e favelas.  As polvorosas assimetrias e abissais percentagens entre ricos e pobres.
3 – Do ventre incestuoso entre dinheiro e exclusão sai o monstro da guerra. Monstro de sete cabeças que se alimenta da sua própria reprodução. Violência atrai violência. A intifada gera a metralhadora. A metralhadora  deseja  o míssil. Depois, o porta-aviões,   a  insaciável autofagia do corpo-a-corpo no terreno, a guerrilha urbana.  E, por fim, o feto nauseabundo das armas químicas. “Nunca haverá guerra que acabe com todas as guerras”.   
4 – Por mais estranho que pareça, do pântano dos mortos e esfomeados, filhos dessa maldita tríade --- “a economia que mata”, a exclusão e a guerra --- levanta-se o clamoroso grito da repulsa visceral que desperta, sobretudo nos jovens, a sede de heroísmo combativo, que os leva ao cúmulo da esquizofrenia capaz de apertar à cintura  o ferrete da morte e entregar a própria vida abraçados à bandeira do herói  e  à glória do mártir. A tanto chega o misterioso psíquico do ser humano!
5 – Por fim, para abrir portas e dar livre trânsito aos destruidores “quatro cavaleiros do apocalipse” que acabei de enunciar, lá está de serviço a inércia calculista dos líderes mundiais. A passividade interesseira: eu dou-te armas em troca de petróleo, eu ofereço-te tecnologia em troca de estupefacientes e produtos similares.
         Estava  (e está)  no âmbito desta síntese aproximar as evidências do actual estado de guerra que nos rodeia, mas deixo-as, por enquanto à vossa pesquisa. Proponho a metodologia mais expedita: começar pelo “teatro de guerra”  lá longe. E, depois,  regressarmos ao país, à região, à cidade ou à aldeia em que vivemos. Tudo, para respondermos frontalmente  à questão inicial: “Nós, jihadistas”?
HAJA CORAGEM!

19.Nov.15

Martins Júnior