terça-feira, 29 de dezembro de 2015

ACONTECE EM MACHICO: BELEZA E ARTE AO VIVO E AO ALTO!


Não há  rotativa que imprima nem “câmaras” tão vastas que fixem a profusão incontida de emoções que pululam do coração da ilha, desde as ricas urbes até aos mais ignotos lugarejos perdidos nos vales côncavos da nossa paisagem. Para a comunicação social oficializada contam apenas os feitos e enfeites mercantilizados, a opulência propagandística das entidades promotoras, enfim, a carcaça despersonalizada das cidades que, por mais deslumbrantes que se apresentem,  não deixam de ser carcaças iguais a todas as outras, de um outro hemisfério.  Na sombra, como se fossem campo morto, ficam as iniciativas nadas e criadas na alma das gentes, sobretudo, nas periferias das grandes capitais. E é precisamente aí que o Natal transborda, generoso e sem limites, numa maré cheia que nos  invade de um delírio extasiante, quase místico, até ao mais íntimo de quanto somos. A razão de ser  desta mágica transfiguração radica na sua fonte secreta: a inspiração criativa dos seus artífices e usufrutuários --- o povo, as crianças, os jovens, os artistas locais, os pais, os filhos, famílias e vizinhos, todos simultaneamente autores e participantes. Os media não se interessam em divulgar e, com isso, apenas sobreelevam a autenticidade plena das iniciativas.
É o que tenho presenciado e vivido nesta faixa leste da ilha da Madeira,  terra da nossa pertença, onde o sol nasce primeiro. Muitas e variegadas manifestações deste teor têm-se  repetido ao longo da quadra natalícia. Quem assim vive inebriado do bucolismo solto e puro --- “puro como os bosques e doce como as donzelas”, diria Ruy Belo --- esquece o barroco dos mais sofisticados ambientes.
Acabo de participar, agora à noite,  num oásis de frescura surpreendentemente matinal, no Forum Machico, oferecido pela Associação “Grupo Coral de Machico”, juntamente com a centenária “Banda Municipal de Machico”. Outros dirão que não há aqui a sumptuosidade dos teatros clássicos ou o requinte de uma Broadway. Mas tal como desabafava o cardeal português Gonzaga,  do nosso Júlio Dantas, aqui, como é diferente o amor deste Natal!… Logo na ribalta o friso de gerações, “ensemble” juvenil de guitarras e o coro infanto-juvenil, Tuna da Banda Municipal, logo seguida dos quarenta consagrados coralistas, um trabalho feito com distinção e afecto pelo maestro Nélio Martins, quer no seu conjunto vocal, quer nos solistas, de exímia interpretação.
Acoplando o aforismo latino Finis coronat  opus (“ o fim é a coroa da obra toda” ou, em linguagem popularizada, “a cereja em cima do bolo”) surge, imponente, a actuação da Filarmónica. Embora seja batida a adjectivação, mas apraz-me trazê-la a este contexto:  Fabuloso é o menos que se pode dizer! Oh, o rio visceral que percorreu corpo e alma da casa cheia desta noite”… Oh, a torrente avassaladora dos metais que nos fizeram transportar para a grande paisagem que a lua iluminava na terra e no mar!... A Cassiopeia, do compositor Carlos Marques, não deixou nenhum espectador agarrado à cadeira, com a Banda dirigida por Miguel Canada e, depois, com orquestra e coro  sob a condução de  Nuno Santos. Foi oportuna a iniciativa de tornar  gratuito o espectáculo,  pois nenhum preço pagaria tão preciosa “prenda” de Natal e Fim-de-Ano. Impossível esquecer o Ave Maria,  de William Gomez, com orquestração de Simone Nucciotti e superior interpretação de Cristina de Sousa.
O melhor aplauso não veio das prolongadas palmas, mas do “brilhozinho nos olhos” de quantos dali saíam, como quem sai de um banho de espuma marinha, mais leves, mais livres. Da minha parte, o reconhecimento ao director da BMM, prof. Manuel Spínola e, embora ainda ausente (que volte depressa!)  ao maestro  Nelson Sousa. De registar o apoio da  Câmara e Junta, cujos titulares ali estiveram, como é seu dever e seu hábito, no exemplo a transmitir à comunidade  de Machico..
         Fico sabendo que amanhã, dia 30, idêntico acontecimento será levado ao palco por uma outra organização local. Parabéns! Bem hajam todos os promotores. É com iniciativas autóctones, por mais  modestas ou desapercebidas da Grande Reportagem, que se semeiam, como chuva miudinha arroteando os campos,  a cultura e a civilização de um Povo.

29.Dez.15
Martins Júnior