sexta-feira, 3 de junho de 2016

À CRIANÇA DE HOJE E DE SEMPRE: Perdão e Desagravo


Foi esta a Semana da Criança. Não apenas o Dia. E por aquilo que se viu, aqui e acolá, nos pátios das escolas, nas ruas, até no teatro dos santuários,  atrevo-me a dizer que foi o Mês – e talvez mais  -  da Criança. Acompanhei apaixonadamente reportagens, declarações, artigos de opinião, muitos até contraditórios, mas todos ostentando na testa – no coração é que não – o superior interesse da Criança.
Desejaria eu, hoje, em fim-de-semana, guardar o  tilintante chilreio sem compasso da pequenada a divertir-se anteontem, seu Dia oficial. Ao contemplá-las, as crianças, no buliçoso balancé sem amarras, recordei-me do pensamento de Pasteur: “Diante de uma Criança, sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é,  mas cheio de respeito por aquilo que poderá vir a ser mais tarde”. E face a esta incógnita, “O que poderá vir a ser mais tarde”, sinto que “a ternura e o respeito” tomam outra dimensão: um tremendo bater no peito, um inadiável pedido de perdão.
Pelos abusos subreptícios que dela fazem as empresas publicitárias sem escrúpulos – Perdão. E Protesto.
Pela exploração infantil levada a cabo pelos  proprietários de colégios e afins – Perdão. E Protesto.
Pela lavagem dos seus frágeis cérebros em catequeses estéreis, quando não preconceituosas e perturbadoras, em escolas profissionais do obscurantismo religioso e anti-cultural – Perdão. E Protesto.
Pelo insolente arrebanhamento que docentes-funcionários (as) do regime fazem das crianças, levadas inconscientemente para massificadas missas de fim-de-período escolar – Perdão. E Protesto.
Pela miséria que obriga miúdas e miúdos a rastejar nas vias da mendicidade pública e da desonra degradante para matar a fome aos irmãos mais novos. Perdão. E Protesto.
Pela monstruosidade de pais que, cúmplices de violência doméstica, usam as crianças como arma de arremesso, dentro e fora de casa – Perdão. E Protesto.
Pelos criminosos de guerra que afogam crianças na praia ou as condenam a vegetar na lama dos charcos-abrigo de refugiados – Perdão. E Protesto.
Pelos olhitos recém-nascidos que têm por berço as grades da  prisão onde “mora” a ré progenitora. Perdão. E Protesto.
Oh cortejo silenciado, mas acusador e gritante por dentro, que perpassa diante dos nossos olhos doentes e coniventes desta cruel “globalização da indiferença” (Francisco Papa). Escusei-me a nomear muitas outras vítimas inocentes, inquilinos forçados dos subterrâneos da vida, que é morte!
Ternura e respeito! Para nós, os que descemos a encosta, alivia-nos este preito de Perdão. E Protesto. Mas para os jovens e adultos, não vai bastar o pedido de desculpa. Não! Esperem pelo mundo de amanhã, porque a Criança de hoje vai cobrar a factura a quem lhe amputou o futuro.   
Bate-me, outra vez, na cave do subconsciente o  ofegante sobressalto de Antero de Quental: “Não há nada mais terrível que o olhar de uma Criança”!
Enquanto me debruço no muro da esperança gravando o concerto matinal da pequenada no seu “Dia”, leio a partitura da alvorada – um mundo novo, projectado por nós e  realizado pelas mãos promissoras das Crianças de agora.

03.Jun.16

Martins Júnior