terça-feira, 7 de junho de 2016

MERCADO QUINHENTISTA EM MACHICO: “Milagre” da Escola Pública



“Alvíssaras! Arraial, Arraial  Por El-Rei de Portugal”.
É o eco que irrompe das velas enfunadas dessoutra  “Nau Catrineta” que aportou a Machico e reboou por todo o extenso vale. Em três dias, seiscentos anos perpassaram no Ancoradouro das Terras de Tristão Vaz.
Para quem viveu, há 38 anos, a evocação miniatural mas ambiciosa, da chegada dos marinheiros do Senhor Infante às penedias da enseada de São Roque  não pode deixar de emocionar-se com a portentosa gesta que a Escola de Machico levou a cabo, neste XI “Mercado Quinhentista”. Recordo com saudade esse, também memorável porque inédito, “Espectáculo de Luz e Som”  em que os cronistas da época – Zurara, Gaspar Frutuoso, João de Barros, Damião de Góis – apareceram ditando o relato das suas crónicas sobre o Achamento da Ilha. A representação cénica de excertos do “Infante de Sagres”, de Jaime Cortesão, no Largo de São Roque,  coroou a noite branca na baía de Machico. A obra então publicada – “Aquele Espesso Negrume”  -  reproduz um apontamento fotográfico do evento. Ainda soa aos meus ouvidos a “voz” de Zargo ao gritar a palavra de ordem “Oh São Lourenço, chega”! Era a nau que temia aproximar-se da ponta que “mais tarde tomou o seu nome”.
Os organizadores do “Mercado Quinhentista” desculpar-me-ão  este retorno a um passado recente, mas saibam, por isso, quanto louvo e enalteço a iniciativa actual, pelo que contém de beleza, de verdade histórica, de pedagogia ao vivo, enfim, da mais ampla integração geracional. É, sem sombra de dúvida, o maior ex-libris de uma cidade que abarca cultura, nobreza e povo, senhores e oficiais dos mesteres, a terra e o mar, numa palavra a aventura da ciência, aliada à força braçal do homem.
Ao contemplar o magnífico desfile, primoroso e abrangente, transpu-lo para os dias de hoje e, com mais acuidade, incutiu no meu consciente uma clara convicção adaptada ao dilema que domina todo o país. E concluí: Só uma Escola Pública seria capaz de levar a bom termo tamanha iniciativa. Precisamente porque é Pública, ela torna-se igualitária, aberta, interclassista e universalista, aglutinadora de gerações e dos vários contextos civilizacionais da população circundante. Duvido se uma escola privada, de índole elitista e naturalmente selecctiva, teria vocação para abarcar o vasto mundo integrativo, não só do concelho de Machico, mas de outros cenários mais distantes, entre os quais Portugal Continental e o Arquipélago dos Açores, convidados presentes na gloriosa efeméride.
                                                    


As maiores congratulações para professores e alunos, grupos e associações locais. E se algum desejo me for permitido exibir, seja este apenas: Que nunca o “Mercado Quinhentista” saia da vossa mão. Quero dizer, que seja sempre o filão sócio-cultural  nascido da sua fonte originária – a Escola. Quem quiser que venha. Mas venha por bem, para associar-se e ajudar, nunca para oficializar, regionalizar ou  municipalizar. Sob pena de perder a sua força anímica, a seiva telúrica que lhe deu o ser.       
Bem hajam!   

07.Jun.16

Martins Júnior