quarta-feira, 27 de julho de 2016

GUERRA AO “DEUS DA GUERRA”

      
      Para ajudar a entender melhor estas linhas, declaro que o título tem todo o significado daquela saudação do coro angélico na noite de Natal, ou seja: “Paz entre os homens de boa vontade”.
         Por muito importantes e decisivos que sejam os acontecimentos ocorridos hoje,  perto ou longe de nós, não poderei dar mais um passo sem demorar-me sobre o octogenário pastor de Saint-Étienne-du-Rouvray, na Normandia, barbaramente assassinado no altar, às oito e meia da manhã. Nunca na Europa tal sucedera. Aconteceu, anos antes, na Nicarágua com o bispo Óscar Romero, morto em plena celebração por vil maquinação dos capitalistas senhores das terras de El Salvador, que não consentiram ao bispo a defesa dos camponeses escravos, reduzidos à condição de servos da gleba.
         Mas é outro o caso da Normandia, outra a motivação do assassino: o ódio religioso aos cristãos. Numa palavra, a guerra das religiões, pese embora a evidência que a religião não é mais que a capa sacrílega que esconde inconfessáveis interesses de dominação político-financeira.
         O autor do crime interpretou cegamente o Corão  -  a “Guerra Santa” – sibilinamente expressa no versículo 5-51: “Ó vós que credes! Não tomeis a judeus ou cristãos por confidentes, pois uns são amigos dos outros. Aquele entre vós que os tome por confidentes será um deles”. Eis a maldição em que incorrem os que usem de tolerância religiosa. A sanção penal é a própria destruição, sem apelo nem agravo. Só assim serão desagravados  Alá e o seu Profeta. E o Hadith acrescenta: “Fazei guerra com sangue e extermínio a todos os que não crêem em Alá”. É o dogma universal e fulminante como um raio caído da morada divina, o qual, “nos finais dos anos 20, o fundador egípcio da Irmandade Islâmica, Hassan al Banna, transformou em ódio contra o Ocidente, proclamando que até a mais inócua influência ocidental constitui um acto de violência contra o Islão”.  (YoroslavTrofimov, in A Fé em Guerra).   
         Deus no epicentro da barbaridade humana. O Deus da Guerra!
         Não esqueçamos, porém, que Maomé inspirou-se no Livro, a Bíblia, para gizar o seu Alcorão. É lá que Deus se apresenta como o “Senhor Deus dos Exércitos”.  É lá, Livro dos Salmos, que se lê a oração a Deus-Iahveh, contra a Babilónia: “Hás-de ser devastada. Feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós. Feliz aquele que  pegar nos teus filhinhos e der com eles nas pedras”. (136-137). Arrepiante! Insuportável!
Sempre o Deus da Guerra!
         Até mesmo o protótipo génio criador da civilização greco-romana não hesitou em criar os deuses, afeiçoando-os aos instintos humanos, à sede de sangue e vingança, erguendo um majestoso altar a Marte, o Deus da Guerra!
         E assim se engendraram mitos, embustes, blasfémias, com a invocação de Deus para justificar as barbaridades dos homens. No último escrito, referi-me a D. Afonso Henriques, proclamado rei, após a batalha de Ourique, em 23 de Julho de 1140, cujo sucesso atribuiu a uma visão miraculosa de Jesus crucificado que terá dito ao príncipe: “Com este sinal vencerás”.  Rematado aleive e não menos insolente atrevimento do “verme”  humano contra a Divindade. Já no século IV, 13 de Junho de 313, o Imperador Constantino dera a paz aos cristãos de Roma, alegando ter sido a visão da Cruz no firmamento, com a mesma  inscrição -  In hoc signo vinces – que, um ano antes, lhe dera a vitória na batalha de Ponte Mílvia.
         E o Deus da Guerra continuou a luzir no ferro das baionetas das Ordens Religiosas Militares (os exércitos de Deus) nas sangrentas Cruzadas medievais, nas fogueiras da Inquisição, enfim, nos mais injustos combates  fratricidas, como a guerra colonial em África, onde a forçada presença de capelães militares se misturava com as atrocidades de comandos insaciáveis de sangue nativo. Não se entende esse resquício espúrio que dá pelo nome de “bispo castrense”, um bispo serventuário exclusivo das Forças Armadas. Tenho para mim, perdoem-me se me atrevo, mas tenho a convicção que o Papa Francisco está em chamas para ver-se livre da imperial “guarda suíça” do Vaticano, anacrónica e contraditória…
         “Enquanto não houver paz entre as religiões nunca haverá paz entre as nações” -  continua vivo e imperativo o pensamento de Hans Kung. Mas para aí chegar-se,  há um percurso doloroso e necessário a fazer, o de higienizar a mentalidade dos crentes, ensinando-lhes que é crime de lesa-divindade chamar Deus para os jogos sujos da guerrilha e do ódio entre povos,  nações e religiões. Quantos séculos e milénios serão precisos para alcançar a verdadeira pedagogia da espiritualidade humana?!... Basta constatar que a nossa hierarquia cristã e católica levou séculos para retirar da liturgia a malfadada expressão. “Senhor Deus dos Exércitos”.
         A Guerra ao “Deus da Guerra” – do velho Jeovah, de Alá, de Marte, dos Templários, das Cruzadas, da Inquisição, do vicariato  castrense  -  só será ganha com a catarse interior e com a purificação das instituições, para cujo êxito será necessário o nosso empenho mobilizador, com vista ao sonho dessa mágica noite de Natal: “Homens de boa vontade,  a Paz é obra vossa”.
         No entanto, o corpo frágil do Padre Jacques Hamel  jaz na campa fria. Foi assassinado pela loucura do jihadista, crente que prestava um serviço a Alá. Foi na Normandia. Em Saint-Etienne-du-Rouvray. Rouen. Ao sentir o nome de Rouen, estremeço, Porque há 585 anos (30.Maio.1431) uma jovem de 19 anos foi queimada viva, na praça pública, em Rouen,  por sentença  dos bispos da Inquisição, afectos ao domínio inglês, traidores à  pátria.
         Padre Jacques, nos teus 86 anos,  não estás só. A teu lado, tens a juventude e as cinzas quentes, libertadoras,  de Jeanne d’Arc, mais infeliz do que tu,  pois foi assassinada pelos “jihadistas” da Fé de Cristo…
         Quando chegará o dia de ver a Luz ?!     

         27.Jul.16

         Martins Júnior