quinta-feira, 29 de setembro de 2016

E JÁ PASSARAM TRÊS ANOS!


Daqui a um ano, já não  poderei repercutir a batida de Sérgio Godinho: Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Tua Vida. Reproduzi-a entusiasticamente – e avisadamente – há três anos, quando soou na ponte que liga o 29 de Setembro ao 1º de Outubro, o hino apoteótico da Primavera da Madeira, quando à meia-noite da ilha irrompeu no firmamento  o  Histórico “Set’Estrelo”  das sete Câmaras ganhas pela oposição ao quarentão poderio   da Região e aqui consignadas na autarquia da capital madeirense.
Tinha preparado para hoje, mais que uma saudação,  um enorme espelho para todos os autarcas então eleitos, onde se projectassem os actores confrontados com os protagonistas do filme, eles mesmos, os eleitos de há três anos. Seria uma retrospectiva na primeira pessoa: os planos, os sonhos, as realidades, enfim, um retorno à juventude, agora amadurecida, talvez sofrida, mas sempre vigorosa no mesmo afã de bem cumprir o mandato novo que lhes foi confiado.
Ao ler hoje  a oportuna reflexão de Alberto Olim, Presidente da Junta de Freguesia de Machico, não hesitei em repor aqui a mensagem que então dirigi aos novos autarcas, pela flagrante  actualidade   de que hoje se reveste. Ei-la:

 SAUDAÇÃO ÀS SETE AUTARQUIAS
E SEUS CORAJOSOS AUTARCAS

           Escrevo para vós, que sois jovens, na  idade e no ofício.
          Escrevo agora que iniciastes  um Dia Novo!        
         Na qualidade  de cidadão e  veterano de lutas antigas, de vitórias e derrotas que são as pedras da calçada de todo o lutador, quero fazer meu o abraço de toda a Madeira Jovem, que vós incarnastes, toda  vestida de alvorada, livre na  pele e no coração dos farrapos desse estigma  ---Madeira Velha, Madeira Nova --- que, durante quase quatro décadas,  intoxicou até à exaustão o corpo e a alma dos madeirenses. Envolvo também neste abraço outras gerações que, antes e depois de Abril, estiveram na vanguarda desse sonho, mas não tiveram a dita, como nós,  de vê-lo e senti-lo.
         Sois vós, Madeira Jovem, os promotores e ao mesmo tempo os procuradores desse direito intergeracional que é o de preparar o Arquipélago do Futuro onde quereis e tereis de viver.
         A conquista, ora alcançada, dos postos de comando e dos centros de decisão ultrapassa o 29 setembrista ou o quadriénio do mandato que vos foi confiado. Vai muito além e atinge o horizonte de uma outra vida, outra paisagem física, ambiental, humana. Numa palavra, o vosso mandato aponta para  uma Nova Ordem Regional.
         Por isso, mais que a derrota do velho regime, importa relevar e interiorizar a chama viva que o Povo vos confiou na maratona olímpica que agora começa. É preciso apagar o rasto viscoso que outros deixaram e, como diria Antero de Quental, “lançar o arco de uma nova ponte”.
         Vede, pois,  na cadeira do poder em que tomais assento, não o porto de chegada mas o cais da partida.
         O “Set’Estrelo”  vitorioso do poder local na Madeira e Porto Santo não poderá trair quem primeiro o acendeu: os vossos constituintes, o Povo Eleitor. Como num grito do Ipiranga, fez-se a Primavera Madeira. Não a deixeis resvalar para uma qualquer  Primavera Árabe, seja nas candidaturas de Partido, seja nas candidaturas de Coligação, sabendo sempre que o vosso sucesso é o sucesso de toda a população, mesmo daquela que não votou na Mudança. E, da mesma forma, o vosso falhanço sê-lo-á o de toda a população , será o retorno aos muros da vergonha, da ditadura e do medo que acabais de derrubar.
         Estais agora sob os holofotes de toda a gente, milhares de olhares estão a contemplar-vos aqui, no Portugal Insular, no Portugal Continental e até no estrangeiro entre a diáspora madeirense que desejou e acompanhou ansiosamente esta vitória.
         Termino a minha saudação  com dois apelos, nascidos de muitos anos de veterania solidária:

         PRIMEIRO:
         Se é altíssima a soberania nacional e alta a autonomia regional, não menos alta e nobre é a autonomia do poder local. Este deverá ser sempre  o fio de prumo de todas as vossas decisões. Consegui-lo-eis instaurando, mais que a democracia representativa, uma outra maior, a democracia participativa, em que o Povo ocupe a centralidade na mesa das vossas decisões e no chão do vosso território.
           
            SEGUNDO:
         No mesmo tom da canção de Sérgio Godinho, que a toda a hora ouvia esta frase batida “hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”, assim também, desde o instante da tomada de posse, ressoe no vosso sentir e no vosso agir este pregão: “Lembra-te que hoje é o primeiro dia do resto do teu mandato”. Quatro anos passam-se mais depressa que a névoa da tarde. E o que é preciso é que,  ao fim deles,  renasça outra vez convosco a  manhã  da Primavera Madeira!
        
Machico,  1 de Outubro de 2013
Boa sorte e um abraço
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Se em 2013 trauteei a canção de Godinho – “Hoje é o primeiro dia do resto do teu mandato” – passados três anos e faltando apenas UM  para a definitiva prestação pública de contas, apenas direi “Hoje é a primeira hora do resto do teu mandato”.
29.Set.16
Martins Júnior