sábado, 17 de dezembro de 2016

A PAPADA MAIS GOSTOSA DO MUNDO --- Uma espécie de conto de natal


“Era uma vez”…  Podia  começar assim  a lengalenga de hoje, tal como nos contos  de fadas e duendes. Mas não. Vou começar pelo “Foi uma vez”! O espanto da exclamação significa  um facto verídico e  o apreço  da sagacidade popular.
         E lá ai a história, que bem podia apresentar-se como um conto de natal, tão diferente porque, aposto, talvez nunca ninguém  contou outro igual.
         Era o malfadado tempo da colonia na Madeira, tempos duros de escravidão a que eram submetidos os pobres camponeses, os “caseiros”. Entregavam ao senhorio metade da produção agrícola, pagavam galinhas  pelo chão da palhota, a que chamavam casa. O mais típico e requintado, neste caso, era a obrigatoriedade implacável de levar ao senhorio a papada do porco que eventualmente fosse criado no terreno. A papada era considerada a parte nobre e mais gostosa do bicho e, por isso, direito austero do amo. O caseiro e os seus numerosos filhos bem desejavam em vão provar a cobiçada goela do suíno. E o  pai logo atalhou sem respirar fôlego  : “Ninguém lhe toque, o sr. administrador do concelho, que é o nosso,  mete a gente na cadeia”  
Falta completar o cenário com esta notícia: A matança do porco era obrigatoriamente e religiosamente o “Dia do Ó”, o 18 de Dezembro, nem antes nem depois, sob pena de sanção superior.
         Aqui começa a trama, o argumento do filme.

         José era um miúdo franzino, o mais novo   de uma família de doze. A face e os olhos denunciavam um adolescente imaginativo e perspicaz.  “Pai, este ano vai-se comer a papada do porquinho da festa.  “Deus te livre, cala-me prá í essa boca, diabos te levem” – intimou-lhe o pai. “O sr. amo ainda manda prender a gente todos”.  O rapaz, vencido mas não convencido, afastou-se, resmungando para o inditoso porco: “Vais ver, vais ver”.
Três meses volvidos, vem o nosso José, ousado e lampeiro, chega-se ao pai: “Olhe, este ano mata-se o bicho uma semana antes do ‘Dia do Ó’. Vai-se ao chiqueiro, tira-se  a porca  (afinal, era porca), veja lá: já não se aguenta em pé com as treze arrobas que tem em cima do lombo. Tá gorda demais. Ah, e sou eu que vou levar a papada à casa do sr. amo, lá na vila. Ele até pode-me dar dois tostões para a festa”.
Dito e feito. Os irmãos a postos, o pai ansioso por salgar a carne para o ano inteiro e  da  gordura fariam banha. Feita a queima de pinheiro, o pobre ‘chico’ fica opado, cortam-lhe a papada e na tarde desse dia lá vai o rapazito, “pernas para que vos quero ”, mas sempre com o coração aos saltos, não fosse o senhorio apanhar-lhe  a marosca.
         - Senhor amo, meu pai mandou-me trazer a sua papada”. Abre, nervoso, a cesta e joga para o mesão da cozinha o pesado tributo, com um estrondo que assustou o próprio dono da casa. “ Então, seu fedelho, nem sequer  tiras o barrete  ao teu senhorio?”.
         Tremendo de medo, atira o boné ao chão. E o latagão, sentado à secretária velha,  desconfia e indaga com o pequeno: “Mas, como é isto? Ainda falta uma semana para o “Dia do Ó”.
         - Ah, sr. amo  (e dobra-se todo), esqueci-me de dizer que  meu pai tinha a porca doente e matou hoje de manhã, prá gente aproveitar alguma coisa..
         - Seu malandro  - levanta-se irado o homem, mais opado que a porca do caseiro. Vou-te mandar já para o calabouço.
         O pequeno treme, treme, ajoelha-se diante do administrador e chora como uma  pecadora arrependida.
         - Desaparece com isso daqui. Então tu vens  matar-me com carne gangrenada? Vou-te matar aqui dentro.  E a seguir vem o teu pai.
Enquanto o senhorão vociferava, o miúdo aperta  com as mãos a apetecida papada dentro da cesta e, ao último berro autoritário, fisgou-se porta fora, meteu-se pela ribeira que lhe encharcava as pernas. Enfim, chegou a casa. E antes que o pai lhe perguntasse pelo sr. amo, o rapaz abre a cesta de vime, como se fosse a maior bola de ouro  do mundo. “Eu não lhe disse, pai, que este ano a papada era cá da gente. Pronto, tá aí.!
O aldeão sexagenário, temente ao senhorio como se  teme a Deus, baixou a cabeça, cruzou os braços, boquiaberto: “Nunca pensei que fizesses isto, meu filho. Agora é que vão ser elas”.
“Elas” ficariam para outro dia. Mas nessa hora houve festa em casa, comeu-se a papada e até a lenha  da cozinha ria-se estrepitosamente na lareira,  porque o pequeno José tinha enganado o justiceiro  dos camponeses, os espezinhados  de outrora, pobres servos da gleba, seus avós e tetravós.
Foi um Natal diferente, vitorioso, com folias, machetes  e cantigas ao desafio, porque o José, o elo mais fraco, tinha quebrado a cerviz ao senhorio: “Ele já comeu papadas a mais, gesticulava. E a gente aqui em casa, nunca lhe metemos o dente. Vamos comer e beber e dar graças ao Menino Jesus por esta oferta”!
O que se passou depois não vem ao caso. O certo é que, não obstante a pequena fraude do José,  sempre ficaria na história a lição de que o mais frágil pode ganhar ao mais forte, o mais pequeno pode derrubar o gigante, como David a Golias. Nesse dia, José, o mocinho, tornou-se o rei da casa.

 17.Dez.16
Martins Júnior