terça-feira, 13 de dezembro de 2016

DOIS PORTUGUESES DO MUNDO E OS JORNAIS DE BAIRRO


O meu olhar desta terça-feira vale tanto como o seu contrário. No colorido estádio das opiniões, todas as bolas e todos os chutos valem, mesmo que não acertem no alvo. Cada qual é árbitro de si próprio. Foi neste relativismo, sempre discutível,  que anteontem me atirei ao relvado, timidamente, com a alegoria do presépio e da manjedoura transplantados para o rectângulo onde vinte e dois “pastorinhos” e três “reis magos” correram, lavraram, espernearam até mais não poder.
Mas hoje, a timidez deu lugar à coragem. A curiosidade  - ou a atenção - que me dispensaram os amigos, companheiros ‘blogers’, incitou-me ao desabafo que pensava curtir só comigo mesmo. E lá vai,  sem mais preâmbulos:
Foi ontem Dia Grande para todo mundo português. Porque dois portugueses encheram o mundo inteiro de prestígio e de esperança: António Guterres e Cristiano Ronaldo. Um, CR,  guardou, pela quarta vez, na mão e no bolso o merecido esférico de melhor futebolista do planeta  O outro, após longa caminhada entre os excluídos e  exilados, subiu ao topo do mundo para tentar transformar as lavas da guerra  no ouro da paz. Um saiu do chão da pobreza e alcançou as galas do “Jetset”. O outro, oriundo dos divãs do bem-estar  e das cátedras da Faculdade, desceu aos antros da miséria humana, “sujando as mãos na lama da pobreza”, como um dia se dirigiu corajosamente Francisco Papa aos seus correligionários.
Numa escala de valores, qual deles o maior?!
É aí que salta o vigor, senão mesmo a cegueira, do relativismo. Cada qual tem a sua escala. Na geoestratégia dos tempos que correm, um dos ‘galardoados’  tem o “rectângulo verde” como  se fosse o mundo todo. O outro tem por  seu rectângulo de acção o mundo inteiro, de todas latitudes e longitudes,  com a “missão impossível” da quadratura do círculo.
Os jornais generalistas de Portugal Continental, consoante o seu padrão valorativo, deram o destaque in contornável às duas personalidades, puxando para primeira página a feliz notícia, com  registo fotográfico assinalável. É da mais elementar interpretação jornalística inserir na primeira página os valores fundamentantes do respectivo periódico. Porque é no rosto, mais que nos interiores,  que se define a publicação e é com esse impacto visual  que pretende formatar a opinião pública.
Sem mais comentários - que os deixo a quem quiser desenvolver o caso – devo dizer que foi com repugnante surpresa que avistei os nossos dois jornais diários, cada vez mais iguais, apagarem liminarmente da primeira página o actual Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, na cerimónia do Juramento Solene, em Nova York, com a presença do Presidente da República e do Primeiro Ministro de Portugal, ao lado dos representantes de todos os países membros.  
Foi Nietzsche quem teorizou que ”o importante não é o acontecimento mas a sua interpretação”.  Pelos vistos, aqui não é Portugal. Como madeirense e português, sinto-me lesado e envergonhado.  Mas se acaso querem puxar pelo bairrismo ilhéu, relevando os que fizeram bem à Madeira – mais que só por isso não fosse – a memória escasseou aos publicitários, esquecendo-se que foi o Primeiro Ministro António Guterres,  quem perdoou aos madeirenses a colossal dívida de 110 milhões de contos, (550 milhões de euros) numa época de crise fatal para as finanças regionais.
O que mais conforta é saber, como Charles Péguy, que “o jornal de ontem já é  mais velho que a ‘Odisseia’ de Homero”.

         13.Dez.16
         Martins Júnior