segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NATAL DA TERRA – E TERRA DO NATAL


Haverá aí alguém capaz de juntar numa única e vasta plataforma todos os Natais: os de inspiração popular, os da paleta gótica de um Fra Angelico, os da primorosa Escola Flamenga, onde o Menino nasce num salão real, com as cortinas de cambraia a abrir-lhe a alcova. Estarão lá também os estonteantes néons de feira, os pingentes de sininhos, bolinas, extra-terrestes pendurados nas espiguilhas, os das árvores de plástico cromado, enfim, toda a gama de produtos com que se entretém o vulgo. E todos eles sobrevoados pela abóbada colossal do Gloria in Excelsis Deo.
Como um único episódio dá miríades de novelas!
Mas é para a descoberta desse sentido último, que durante nove madrugadas, sem interrupções,  servem as Missas do Parto.
No modesto templo que habito, descobriu-se o que vemos todos os dias  - e todos os dias pisamos na romagem da vida. É o Natal da Terra, ecologista sem tese, tremendo e singelo como o chão que nos tem. O Natal sem cortinas de fumo e sem ferrolho nas portas: é o Natal aberto, livro inescrito onde até os analfabetos sabem ler. Em síntese, este ano temos seguido, pela mão de Teilhard de Chardin,  a viagem dos nove meses em que se operou a gestação do Menino no seio da jovem Maria de Nazaré.
          Não é fácil (bem pelo contrário) “partir o pão aos pequeninos” – na mimosa expressão do clássico Pe. Manuel Bernardes - traduzir o génio criador, telúrico e místico, ao mesmo tempo, daquele que fez da matéria a incarnação do espírito, a sua rampa de lançamento para o vértice da convergência de quanto existe, a sua cosmogénese, em que todos os elementos convergem naquele que  é o Alfa e o Omega da História.  Mais concretamente, o parto das missas nesta estância rural consiste em reconhecer que, afinal, a única espiritualidade possível é a que começa no mais íntimo da terra e sobe até aos confins sem fim do Autor Supremo.
               Cito o Pe.Teilhard de Chardin, o homem dos desertos  e dos mares, das nervuras vegetais e dos microssistemas povoados de todo o mistério das espécies:
“Tempera-te na matéria, Filho da Terra,
banha-te nas suas camadas ardentes, porque ela é a fonte e a juventude da tua vida… Ah! Tu pensavas poder prescindir da matéria, porque o pensamento se acendeu em ti. Tu esperavas estar tanto mais vizinho do espírito, quanto mais meticulosamente desprezasses aquilo que te toca, mais divino quanto mais vivesses na ideia pura, angélica, separada do corpo, hostil teu ao próprio corpo… Pois bem, quase morreste de fome”.
Concretamente: é a partir do natural que chegamos ao espiritual e ao sobrenatural, apreciando e defendendo o ambiente, a atmosfera, o ar que respiramos, a flor que acariciamos, os frutos que comemos. A natureza concentra o gérmen de toda a ascese e de toda a mística,  isto é, de toda a ascensão do ser humano até ao Ser Divino.
A mensagem de Teilhard de Chardin não encontra melhor tradução e sentido como no nascimento dessa Criança que nasceu colada à terra e que mais tarde, já adulto, tudo quanto ensinou bebia a inspiração primeira nos trigais, nos vinhedos, nos pomares, nos lagos e rios da sua pátria. Não precisou de recorrer a silogismos pretensiosos ou a tratados teológicos. A vida nele era a filosofia e a teologia essenciais. Identificado com Teilhard de Chardin está o corajoso testemunho do Papa Francisco na sua encíclica Laudato Si.
É esta a mensagem do presépio. Bem longe, tanto da sofisticação ornamental como da doutrinação oficial e dos rituais folclóricos. É esta, também, a Eucaristia  vivida entre nós durante nove dias, em homenagem à ´Mãe Terra, à Mãe-Vida, Senhora do Parto!

19.Dez.16
Martins Júnior