segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O SONHO E A REALIDADE - ou – O OPTIMISTA E O REALISTA --- Um Brinde de Natal

       
          Matança do porco, carne de vinha-de-alhos, chocalhos e búzios, licores, broas de mel, canja de galinha e missa do galo… “Espectáculo”, diria o Gordo. É o Natal da barriga folclórica que sai do genuíno aconchego familiar e salta para o adro da igreja e alaga as atlântidas, as ondas hertzianas, os programas “super-educativos” cá da ilha. Não só da ilha, mas de todas as janelas escancaradas dos hipermercados, cada qual com a sua pirueta  consumista. O povo gosta… e  até precisa do estalar de copos e talheres para fazer a Festa. Só faltava esta de vir o parteiro-governo fazer reclame e sermão das “missas do parto”!
         Sei bem que um programa de variedades ou um arraial de pastores não são propriamente uma sala de retiro nem uma cela contemplativa.  Mas, pessoalmente, incomoda-me esta overdose ensurdecedora de massificação colectiva em que se pretende  comprimir o Natal. Pela minha parte, trago um brinde diferente – o único, talvez,  que confere com a história – e peço licença para o colocar no pinheirinho, sempre verde, desta sala comum do “SENSO&CONSENSO”. Será assim:
         Há uma encruzilhada da história humana em que o sonho e a realidade se encontram. E, ao mesmo tempo, se desencontram. É a gruta, o pomar, o deserto, o casebre, chamado Natal. É também o rio que desagua em delta. Ali a ficção de outrora, a ambição superna das gerações de antanho, queda-se perante o acordar numa noite de invernia. Aí cantam (e brigam!) duas figuras de proa da narrativa bíblica: Isaías e João, o Baptista. Isaías é o sonho, tão vívido, frenético, colado ao mundo futuro como se ele fora presente, expresso na ternura da ruralidade mais tocante:” O lobo será bem recebido no currais dos cordeiros … as crias dos animais selvagens e as dos animais domésticos pastarão juntas, lado a lado… a criança poderá meter a mão na toca das serpentes venenosas sem que estas lhe façam mal algum”. Noutra visão apoteótica, Isaías antevê, “com os próprios olhos”, que “nenhuma nação levantar-se-á contra outra e que jamais os povos serão treinados para a guerra”. Acabar-se-iam os exércitos e os soldados “transformariam  as lanças de guerra em foices e relhas do arado”  para arrotear os campos.   Enfim, o sonho azul,  ilimitado. Para quando? No nascimento do Messias, o Natal.
         Mas chega o Natal e o Baptista vê-se cercado pelo logro. Cai na real.  Afinal, fora  enganado pelo Livro, porque os “lobos-homens” devoram os “homens-cordeiros”,  a cobardia farisaica afoga no silêncio a infância pura. Os  profissionais  do Templo e os emissários do Imperador tramam na mesma cama a matança dos inocentes. O Baptista desperta, atira o Livro de Isaías à torrente do rio Jordão e descobre que é preciso agir, lutar, clamar, nem que seja no deserto. E fê-lo tão arreigadamente que lhe cobraram a factura: a cabeça decepada sobre uma salva de prata assassina, por ordem de Herodes.
         E com o tal Messias Prometido  foi aquilo que se viu. Do Taumaturgo das miragens  bíblicas fizeram  um sem-abrigo de nascença e um indefeso Derrotado!
         Mas isso é demais – dirão alguns. E os bolos, os chocalhos, os licores, a matança do porco e a carne de vinha-de-alhos, vamos jogá-los  ao lixo? Afinal, não há Natal?!
         Ao lixo, não. Mas definitivamente deixem de entronizar o acessório em detrimento do essencial. Há sempre um tempo de tréguas. Saudáveis e necessárias, mas nunca a servir de narcóticos, ainda que folclóricos de circunstância. Porque, se as nuvens negras continuam a  pairar sob o azul do firmamento aqui e mais além, então todo o Natal será um postal e um apelo para cumprirmos nós, aqui e agora, o sonho messiânico de Isaías.
         Sem dramatismo forçado mas com renovada coragem, acompanho o grito de Ary dos Santos, no fecho do seu poema “Kyrie”:

         Em nome dos teus filhos que esqueceste
         Filho de Deus, que nunca mais nasceste,
         Volta outra vez ao mundo

      Mas, sei eu, que só voltará pela força da nossa mente e pela energia do nosso braço.
          Natal Sempre!

         05.Dez.16
         Martins Júnior