quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“VIRGEM DO PARTO, OH MARIA


Alvíssaras pelo parto de Jesus!... Eis-nos transfigurados, em bucólica levitação, levados pela tradição, pelos avós e bisavós, que lá de longe, muito  longe, um longe invisível, vêm sentar-se à nossa mesa nesta estância aconchegada do Natal. Bom é passar o facho luminoso das antigas gerações para que a ponte da história não se quebre, muito menos por nossa causa. Não se sabe, porém, por que nesga de originalidade anteciparam a folia para o dia 15, quando manda a tradição que seja o dia 16 de Dezembro: os nove dias ininterruptos, como ininterrupta foi a gestação do Menino até à hora em que nasceu.
Falei em folia. E é assim mesmo. Saem à rua os pandeiros e as castanholas, os búzios fazem o solo cavo, ao som das violas, rajões e acordeões. Os sinos acordam mais cedo, depois de passar uma noite em claro para não deixar o sol sair antes do seu lamiré precursor. A romaria enche a noite de artifício luminoso (nalguns casos, até, de ribombo foguetório) e tira os vizinhos da cama… vamos prá festa, prá romaria. E o templo da Virgem do Parto enche-se de fiéis à tradição. Só não sei se a Parturiente fica sossegada com tamanho alvoroço, alegremente regado com um fundinho de “macia” caseira. É o Povo, na sua genuína, intrínseca demonstração de renovada vitalidade campestre, quase bíblica.
E por tratar-se de um recanto singular, intimista, mas aberto a quem  vier por bem, estranha-se  a devassa publicitária com  que se estardalhaça aos quatro ventos  um gesto comunitário que só vive e sobrevive pelo calor humano, pleno de verdade identitária do agregado que o constrói. Choca-me quando  ouço falar que os governos ilhéus já servem no menu turístico as “Missas do Parto”, artificiando-as, deformando-as, amputando-lhes os direitos de autor e consumidor de um Povo que nada  no ritual tradicional, seu, muito seu, como o peixe na água.
Entendo e sinto – porque é nessa praia que também mergulho nesta quadra, embora de formato próprio do lugar  onde habito – sim, entendo que há certas manifestações que deveriam deixar ficar-se no seu figurino endémico, que, como usa dizer-se, “não são para vender”, mas para viver, sobretudo quando têm a ver com a crença e a religiosidade de quem com elas se identifica.
Assim, parece-me puxado pelos cotovelos esse projecto de candidatar a património imaterial da humanidade as “Missas do Parto”. Respeito, mas confesso que sentir-me-ia muito mal ziguezaguear num palco “para inglês ver”, quando é no chão, ombro a ombro, coração a coração, no boca-a-boca das cantigas que dá gosto em participar. Ali, dentro ou fora do templo, ninguém é espectador, todos são intervenientes na fala, na prece e no canto. E se vamos pelo “exquis” (desculpem mais este galicismo) e pelo folclore da coisa, então candidate-se o arraial do Bom Jesus da Ponta Delgada, onde as pessoas pernoitam bem aguadas debaixo das latadas. Ou a Festa dos Milagres. Ou da Piedade. Ou da Fátima. Há um núcleo dinamizador em todas essas devoções que não se deve deixar estragar, nem sequer macular com interesses mercantis e outros afins.  É que, por este andar  (longe de mim  ofender o pudor de quem quer que seja) qualquer dia o porco vai reclamar que a sua matança também tem pés para entrar na Unesco e exigir  tão cobiçado galardão. É original, é típico, é tradição ( Credo, Abrenuntio!)
Têm graça as “Missas do Parto”, mais que não fosse porque unem as pessoas do lugar e realizam a osmose entre o sagrado e o profano. Os pagãos também o faziam com os seus deuses, desde tempos imemoriais. Tudo o que concorre para juntar o colectivo no mesmo abraço de festa, tudo é bom e inofensivo. Desde que não se incomodem as fleugmáticas nuvens da noite com estampidos anti-natalícios que sobressaltam os humanos que se sentem tranquilos nos “braços de Morfeu”.
Deixem em paz a “Virgem do Parto”.
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No próximo dia, rir-me-ei convosco por um episódio verídico, mas hilariante, que pertence ao corpo da Festa e revela a sagacidade popular em tornear o nó górdio com que os grandes deste mundo teimam em “sangrar” os mais pequenos.

  15.Dez-16

Martins Júnior