quinta-feira, 23 de março de 2017

PARA ONDE SE HÁ-DE FUGIR?...


Para quem viveu o sobressalto, todo o dia  e a toda a hora, da guerrilha colonial por terras de África , não pode ficar quieto perante o que se passa nas principais cidades europeias. Circulando pelas ‘picadas’ da imensa floresta africana, sempre vigilantes ao menor estalido das árvores seculares e com o coração aos tombos, mais estremecentes que as molas do velho ‘unimog’ que pisava um terreno minado, o sonho que nos animava era chegar àquele dia, marcado ansiosamente no calendário da caserna,  para regressarmos à ‘metrópole’ e, enfim, dormir em paz na cidade ou na aldeia da nossa pertença.  Mas o que nunca suspeitámos acontecer depara-se-nos agora no asfalto da nossas avenidas e parques de lazer, dentro da nossa própria casa: a guerrilha urbana. Voltámos às ‘picadas’ da selva em plenas praças civilizadas; os autocarros, os trens e os peões anónimos pisam  crateras  assassinas e petardos  prontos a detonar. Nem escapam as muralhas outrora inabaláveis nem os baluartes onde se fazem as leis  que seguram as nações, como acaba de acontecer no Parlamento britânico, marco primeiro das democracias europeias
         E surge a grande, angustiada incógnita: Para onde se há-de  fugir?... Quem nos defende, quem nos segura?.. Nem nos subterrâneos do metro nem no alto das montanhas, nem nas asas do avião!
         Desde 2011, um pantanal encharcado em sangue - esta Europa, libertada em 1945, igualitária em 1948 pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e reunificada em 1957 pelo Tratado de Roma!  Proporcionalmente mais vitimizada que Portugal nas guerras de África: 2004,  metro de Madrid, 191 mortos e 2000 feridos.  2005, metro de Londres, 56 mortos.  2011, num acampamento de Utoya, 68 mortos a tiro. No mesmo dia, em Oslo, ataque à bomba, 8 mortos. Janeiro 2015, Paris, semanário ‘Charlie Hebdo’, 12 mortos e 12 feridos. Novembro 2015, Paris, ‘Bataclan’,137 mortos. Março 2016, Bruxelas, 35 mortos. Junho 2016, Leeds, assassinada a deputada Jo Cox.Julho. 2016, Nice, 87 mortos, centenas de feridos. Dezembro 2016, mercado de Berlim, 12 mortos, 50 feridos. O ataque de anteontem em Londres, junto ao Parlamento, matou 5 pessoas  e abalou as estruturas de séculos de regime democrático.
         Quer premeditados nos ‘bunckers’  terroristas, quer individualizados pelos chamados ‘lobos solitários’,  assaltos destes o que pretendem é tornar  a nossa Europa num local inabitável. Quanto se possa escrever sobre este cemitério de inocentes, já foi dito. No entanto, não faltaremos à verdade histórica se constatarmos que todo este plano infernal recrudesceu a partir do tresloucado ataque de Bush ao Iraque, em 2003. Recuando no tempo, verificamos também que foram os países europeus, de alto a baixo, que colonizaram os territórios enfeudados ao Corão, daí brotando uma onda, insanável até hoje, de invasões mútuas que levaram os muçulmanos a ocupar e dominar importantes faixas do mundo europeu.
Não se diga, porém, que o móbil deste arremesso cobarde e assassino é o fundamentalismo religioso de qualquer das partes. Trata-se de ‘negócio’ de assalto às ‘torres’ do capital, sem escrúpulos. Longe vão os tempos da guerrilha armada entre as religiões. A matriz religiosa não passa de insaciável  burka encapotada do domínio e da ganância capitalistas.
Depois vêm as fraudulentas lamúrias de um Trump ou de um Erdogan e outros que tais, que afrontam a paz entre os povos com muros tribais e orçamentos escandalosos para abater imigrantes indiscriminadamente. Não será nas próximas gerações que se hão-de cumprir os desígnios inatos do ser humano em sociedade. Só uma longa e árdua estrada da educação permitirá alcançar  o  bíblico Shalom Adonai  de uma paz duradoura. Leis, parlamentos, governos, tecnologias, famílias, universidades, igrejas, povo – se falhar um só destes denominadores fulcrais está o planeta vulcanizado e nós todos moribundos  de pavor. Onde acharemos um esconderijo que nos garanta segurança e mútuo conforto?
Em jeito de rodapé de página, não consigo esquecer que os madeirenses viveram em sobressalto de guerrilha urbana  quando, na década de 70, o movimento bombista ‘Flama’, cobardemente, foi a mão criminosa que na clandestinidade  abateu pessoas e bens neste minúsculo arquipélago. Com a vigilância e o crescimento civilizacional do povo madeirense e das suas instituições, o jihadismo ilhéu afogou-se para sempre  em mares desconhecidos.
É o que se pretende para o  imenso  arquipélago do nosso planeta!  

23.Mar.17
Martins Júnior