quinta-feira, 9 de março de 2017

SEM TÍTULO!


Primeira barreira: Não pago bula aos homens do poder. Segunda: Perigoso e provisório é sempre transportar alguém ao vértice da glória, sobretudo a quem já se situa no trono do reino, pela sábia razão do risco que se corre perante o dia de amanhã. Terceira: Detesto a adulação, ainda que dissimulada, aos que  nas mãos  guardam  hipotéticas reservas  de benesses prontas a sair.
         Mas hoje, por um imperativo incontornável de análise global, decidi saltar as barreiras para ver ‘claramente visto’ (Canto V,18) um lampejo de alma nova no berço desta presidência-bebé de um ano de existência. Aliás, tudo foi novo neste país - a inimaginável simbiose de forças, até então, antagónicas e, como que a cereja em cima do bolo, uma presidência vigilante e aglutinadora, síntese de quarenta anos de antíteses radicalmente obtusas no seu relacionamento partidário. É nesta conjugação astral numa  nesga do planeta – Portugal - que se ajusta com toda a evidência aquela máxima tão difícil de alcançar: o Homem certo na Hora certa!
         Juntaram-se as peças do puzzle e, do que antes era um mini-pântano de sapos em suicida ‘batraquiomaquia’, passou-se a um estádio superior onde agora falam mais alto os interesses da nação do que os coaxares exclusivistas de cada partido. E tinha de surgir alguém que não deixasse apagar esta chama iniciática, tridimensional, a salvo daqueles que só ganhavam porque os outros – a maioria -  se dividiam. É preciso ter os olhos vendados para não descobrir o exercício de permanente solicitude do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), a fim de evitar que fique em cacos o que tanto custou a erguer. Nisto se traduz a pacificação das lideranças políticas rumo ao maior bem da população. De fora, só navegam os conspiradores sem êxito que persistem em atirar pedras às vidraças para deitar abaixo todo o prédio.
         Nesta campanha de todos os dias sem trégua, MRS derrubou os andaimes dos poderosos encapuzados num palácio, despiu as escamas viscosas que afeavam uma presidência falsamente solene, humanizou a relação entre governante e governados e, sem amarras que o prendessem, soltou-se para o seu meio ecológico, o povo, sentou-se no chão com as pessoas chãs, correu alegremente com as crianças traquinas, condoeu-se com os que sofrem e choram, andou de bairro em bairro, de “Cais” em cais (hoje mesmo,  dia do primeiro aniversário) para acolher os-sem-abrigo, foi docente na universitas académica e na universidade da vida, enfim, abraçou ilhas e continentes. E por muitas beliscaduras que lhe queiram dar, ele aí vai, pássaro livre sabendo, como António Aleixo, que “mais vale pardal na rua que rouxinol na prisão”. A rua é também o habitat de um verdadeiro presidente.
         Podem catalogá-lo de excêntrico, inconveniente e outras sombras estrábicas que só existem nos olhos de quem o critica. Mas tudo isso cai por terra perante a leveza, a transparência, a quase-ingenuidade, a tal ‘difícil facilidade’ de trato de MRS. Só ele poderá fazer isto, acho que mais ninguém seria capaz de fazê-lo. Porque sai-lhe de dentro. É o seu ADN, com que está educando politicamente o povo português. É preciso ser-se verdadeiramente grande para saber estar com os pequenos!  E nem por isso  tem medo de confrontar-se com  o adversário. Quando é preciso repor a locomotiva nos carris, é capaz de fazê-lo, sem peias. Frontalmente. Já o demonstrou.
         Reconheço que não era essa a minha previsão, aquando da sua eleição, embora nunca me tenha saído da memória aquele seu gesto imprevisível em Machico, na década de  90. Presidia eu ao município e, a um domingo, estava eu em despacho particular no gabinete, quando de rompante  entra  o Professor para dar-me um abraço. Eu não o conhecia, senão dos media.  Fiquei positivamente assombrado.  Por dois motivos: pertencia ele à direita ou centro-direita  e eu à extrema-esquerda. O segundo: era o tempo em que o governante madeirense, da mesma área política, enxovalha-me raivosamente (o advérbio peca por defeito) a mim e a Machico também, classificando-nos de 'terceiro mundo'. Ali vislumbrei a coragem, a cordialidade e, sobretudo, a independência de homem sem medo, face ao regime totalitário da ilha.
         Que as minhas felicitações neste dia-aniversário signifiquem continuidades promissoras no presente e no futuro de Portugal!

         09.Mar.17
         Martins Júnior