quarta-feira, 11 de outubro de 2017

NO CENTRO, A VIDA!

                                                              
            Dias há – e estes são os que ora vivemos – que fazem o pleno total. No hiper-painel do tríduo, desde segunda até hoje, quarta-feira, ofereceram-se aos nossos olhos e à nossa consideração fenómenos, os mais díspares e até contraditórios, que dão para pano para mil mangas e apetite para todos os paladares. Logo na ribalta, os trunfos dos craques lusos contra os ‘cheques´ suíços, as surpresas do campeonato político regional,  os badalados escândalos financeiros, os gloriosos 50 anos sobre a morte de Ernesto ‘Che’ Guevara, o terramoto independentista da Catalunha, os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, evocados no auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com valiosíssimas prestações de índole médico-ético-jurídica que nos impressionaram vivamente.
         Nesta densa paisagem humana, optei por um outro cenário, esse único e concêntrico, onde tudo nasce e tudo acaba: a Vida, a sua génese, os saltos qualitativos, as estranhas metamorfoses e, por fim, o seu epílogo.  Tudo quanto mexe, cresce e fenece – é dentro da ‘bola mágica’ da Vida que acontece. Oh enigma da unidade e da diversidade do fenómeno existencial!... Tentar descobri-lo, penetrá-lo nos seus estonteantes meandros e constelações é tarefa ingente, só comparável à do mito de Sísifo (que inspirou a Camus um precioso ensaio filosófico e a Miguel Torga um poema de inexcedível beleza) – a  divindade grega,   condenada a transportar até  ao alto uma pesada pedra que, em lá chegando, voltava a resvalar eternamente ao sopé da montanha.
            Vêm estas considerações a propósito de um livro – uma enciclopédia, direi – lançado anteontem em Lisboa. É seu Autor o Prof. Dr. Miguel Oliveira da Silva, catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, entre outras funções, primeiro presidente eleito do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV). A obra, apresentada por José Barata Moura, Anselmo Borges e Bento Domingues, constitui uma corajosa incursão numa problemática suscitada pelos tempos de hoje, como se regista em epígrafe. Tocar na Vida exige mãos de veludo e punhos de gigante e em que o foco projector iluminante tem o nome e a dimensão da Bioética. Perante um seleccionado elenco de médicos,  juristas, teólogos, constitucionalistas consagrados e um numeroso grupo de universitários, alunos seus, o Prof. Dr. Miguel Oliveira abriu o imenso Livro da Vida com a coragem de quem não teme encontrar a verdade ético-biológica, sem preconceitos nem dogmatismos, aplicando rigorosamente o método cartesiano da dúvida em demanda da certeza que, tal como o lendário Sísifo, retorna à dúvida metódica e nos obriga a prosseguir viagem. No seu cerne, surgem a vertigem e as limitações das novas tecnologias, as responsabilidades das famílias, das escolas e dos Estados, em ordem ao fim último, “a dignidade das nossas vidas”. Foram duas horas de escaldante concentração mas de íntima satisfação global que a todos  nos mobilizaram, a partir da  Fundação Medeiros de Almeida, Lisboa.
            Impossível traduzir aqui a amplitude das suas propostas, onde a par da humildade interior do cientista avulta o ânimo transformador, positivamente  revolucionário, próprio dos bandeirantes de um mundo novo. A título exemplificativo, transcrevo:
            “Os preceitos morais não perderam, por certo, nem força nem autoridade, mas correm o risco de se subverterem perante situações concretas inesperadas que os códigos tradicionais não podiam prever. Impõe-se, portanto, a tarefa de libertar as normas fundamentais que são peremptórias dos preceitos acessórios e secundários que acidentalmente se lhe juntaram em épocas pretéritas, ao sabor de condições históricas particulares e transitórias… A Ética biomédica não pode, pois, ser reducionista nem fundamentalista, muito menos converter-se numa nova teologia da medicina com as suas velhas e novas leis canónicas e dominantes”.
              E a advertência final, eloquente, persuasiva, exigente:
          “Mas o maior mal é querer ser-se banal, é não querer assumir o seu próprio destino na dialéctica sopesada entre o bem individual e o bem comum na defesa dos mais fracos e vulneráveis, aceitar, continuar a ser-se heterónomo, a passividade perante o poder ético, político, profissional e deontológico que vem de fora”.
              Como sublinharam os apresentadores – um Livro sério, científico, obrigatório! Nós agradecemos, Prof. Miguel!

            11.Out.17
            Martins Júnior