terça-feira, 3 de outubro de 2017

“OS EXTREMOS TOCAM-SE” – ONDE SE FALA DE EXPLOSÃO E IMPLOSÃO


Em nenhum outro plano, como no da Política, se corporiza o sábio axioma da geometria linear que deu título ao exercício que hoje apresento. “Os extremos toam-se “. Tal qual  no círculo que desenha a nossa mão, do mesmo modo no círculo político se descreve esse normativo da filosofia secular. A derrota e a vitória moram lado-a-lado, sem nos apercebermos onde começa uma e acaba a outra. O  mesmo poderia dizer-se na dicotomia amor-ódio, tristeza-alegria, amanhecer-anoitecer.
         Quando serenamente sobrevoamos a paisagem pós-eleitoral achamos divertidas, por vezes bizarras, as manifestações exteriores dos seus protagonistas, num cenário coincidindo  vencedores e vencidos: “Ganhámos! Perdemos uma câmara aqui, ganhámos outra acolá. Escapou-se-nos uma junta, mas metemos além mais um vereador, conquistámos um assento na assembleia municipal ou na assembleia de freguesia”.Nem sempre, porém, os magníficos titulares ponderam uma lição tantas vezes repetida e poucas vezes aprendida: a vitória esmagadora de hoje tem infalivelmente à sua espera  a esmagadora derrota de amanhã. Porque a gigantesca estátua da Política está assente em pés de barro.
         Pés de barro que são as contingências, os imponderáveis, as variáveis imprevistas do quotidiano, enfim, a fractura iminente do alicerce que a sustenta. De fora e, sobretudo, de dentro. Aqui, como em poucas outras  circunstâncias, toca a rebate o aviso de outras eras: “Quem ao mais alto sobe  - ao mais baixo vem cair”.
         Variáveis, disse eu, de fora, mas sobretudo de dentro. Não é a bruxa do pessimismo que me pega na mão para escrever isto. É o realismo inexorável da experiência que mo dita. Entremos nos Conselhos (Nacional, Regional, Local)  dos partidos derrotados que hoje se reúnem, desde o PSD ao PCP. Com mais ou menos cambiantes, o espectáculo é o da mais temerosa implosão ou, como é do estilo,  “a noite das facas longas”. Olhos demolhados, mortiços, atravessados; aplausos surdos, lenços brancos que, de dentro dos bolsos, acenam adeuses; demissões, abafados prantos. E pensar que a implosão de hoje foi a explosão de ontem, de há quatro e oito e doze  anos!...
          Paralelamente, os gloriosos triunfadores abraçam-se entre girândolas de palmas e risos, ruidosas ‘palavras de ordem’. E, espalhadas aos quatro ventos,  juras perdulárias  de fidelidade canina ao partido. É a explosão  no seu mais alto  clímax!... Mas um fantasma paira no salão da festa e no  palco da praça, agarrado às canas dos foguetes ou embuçado no lençol da bandeira  matriz: “Esta é a minha oportunidade. Qual o meu cadeirão, a minha pista, qual  o meu pódio?!”. E, assim, paradoxalmente, o fantasma das “facas longas” já começa a afiá-las em surdina na noite dos tambores da vitória. E o líder, vigilante na gávea da barcaça engalanada, chama à consciência  o repto da sabedoria popular: ”Quanto maior a nau, maior a tormenta”.  E mais estremece, quando lhe bate ao subconsciente o  agoiro da ameaça: “Será hoje o primeiro  passo para a implosão de amanhã”?
         Cenas contraditórias, mas reais, da tragicomédia humana, que nos fazem parar ante a portagem larga da trajectória política. Ela  tem tanto de nobre e fascinante, como tem de frágil, mórbido  e decepcionante. Porque a esmagadora vitória de hoje bem poderá ser a cama da esmagadora auto-destruição de amanhã. A história no-lo diz.
         O melhor antídoto ou a mais segura salvaguarda contra os perigos deste escorregadio plano inclinado é olhar o Povo Eleitor e ver nos votos recolhidos não um “voucher” gratuito para a “passerelle” da fama interesseira, mas uma ferramenta emprestada nas mãos dos eleitos para construírem o futuro dos seus constituintes.

         03.Out.17
         Martins Júnior