segunda-feira, 2 de julho de 2018

SAGA DE DOIS DIAS ÍMPARES


                                                 
   
UM E DOIS de JULHO – dois dias ímpares nos anais de Machico e da Madeira. Por isso, junto-os no mesmo ramalhete que cresceu, cresceu no coração atlântico, até perfazer a soberana e gloriosa seiscentésima idade.
Nunca como neste ano da graça de 2018 teve oportunidade a evocação do 1 de Julho. Pela única e ponderosa razão de ter sido celebrado no Porto Santo. Aí, sim, é que assenta como uma luva a apoteose celebrativa, pois que, segundo os cronistas coevos, a pequena ilha, já então ‘Dourada’, serviu de torre de menagem para avistar e achar, no ano seguinte, a Madeira, mais precisamente a baía de Machico, onde desembarcaram os marinheiros do Senhor Infante,  na manhã de 2 de Julho de 1419.
São de tom maior e timbre metálico os concertos oratórios e as retóricas girândolas de tribunos e oficiais do verbo obrigatório nestas circunstâncias. Na boca dos pigmeus de hoje soltam-se loas exaltadas e até crescem como gigantes aqueles que outrora foram esquecidos, vilipendiados, degradados e mortos no mesmo solo pátrio em que hoje são protocolarmente alcandorados como heróis.
Neste círculo comemorativo, trago à ribalta Francisco Álvares de Nóbrega, o Camões Pequeno ou, como mais tarde lhe chamaram os madeirenses, O Nosso Camões. Cantamos-lhe hinos patrióticos, mas no seu tempo, NÓS (falo no colectivo passado a que pertencemos)  hostilizámo-lo e ostracizámo-lo até  aos cárceres da Inquisição. Merecia um estudo aprofundado o soneto que ele dedica à Madeira, a que chama “terreno estéril, árido, mirrado, que converte em peste a chuva de ouro”.  Destaco a segunda quadra do referido soneto:
                   Terreno ingrato, onde, mal é plantado,
                   Murcha, definha e cai por terra o Louro,
Tu, podendo das graças  ser tesouro,
És só de espinhos ásperos juncado.
Assim era há dois séculos e meio a sua pátria-ilha. Mas ele, mesmo marginalizado e escorraçado, deixou o nome escrito no firmamento futuro desta terra. São os homens e mulheres que tornam a terra maior, não obstante o “terreno ingrato, estéril, árido e mirrado” que lhes deram em troca. É em dias como estes – 1 e 2 de Julho – que nos soa na consciência o pregão de John Kenedy a cada compatriota americano: “Não perguntes o que é que a América fez por ti. Antes, pergunta o que é que tu fizeste pela América”.
Em vez de aturar discursos de mercado ou sessões de ilusionismo político, o mais importante e único necessário é interiorizarmos o apelo dos nossos maiores e interpelarmo-nos a nós próprios, a intuição do nosso olhar e a energia deste viajante, que é cada um de nós,  num tempo efémero, para deixarmos, não apenas um nome, mas um ladrilho, um tijolo, uma pedra neste monumento crescente que é a terra que habitamos. Por isso, ouso colocar também a minha modesta pétala na tumba viva do Nosso Camões, fazendo eco da mensagem que  nas páginas dos “Poemas Iguais aos Dias Desiguais” deixei, dedicada a Machico, em dia seu e nosso:
                   Eu sei
Velho Dinossauro de outras eras
Que é por mim por nós que sempre esperas

Desde o Larano ao Desembarcadouro
Da Praia de São Roque  ao alto dos Maroços
Eu sei e  sinto e vejo erguer os braços
Os teus os meus os nossos
Brilhantes como a Estrela do Centauro
E restaurar o sonho antigo
Do teu seio túrgido amigo
Nosso e novo Machico - Oh Velho Dinossauro

1-2. Jul.2918
Martins Júnior