quinta-feira, 9 de julho de 2015

UMA AUSÊNCIA DE INSTANTES – UMA PRESENÇA SEM TERMO



 “VOLTO JÁ”!

Previsto estava para hoje o segundo parágrafo  do título “Populismo e Papulismo”. No entanto, a lei da vida que, no fundo, também é lei da morte, obriga-me a dedicar o dia ímpar de hoje a uma Personalidade Ímpar de Portugal e,  na sua plena interpretação, do mundo e da História.
Participei no seu funeral, um digno preito de homenagem pública, cuja percurso geográfico sintetizou toda a sua vida: o trabalho e o espírito profético, simbolizados  no seu “Colégio Moderno” (onde decorreu o velório) e no seu pequeno oratório --- a igreja do Campo Grande, em Lisboa.
          Ali estavam o cardeal, o núncio apostólico (embaixador do Vaticano em Portugal) bispos, teólogos, sacerdotes. Ali se sentaram e ajoelharam, por formalístico protocolo, penso eu, as altas figuras da nação. Mas se ali não estivessem, uns e outros, pouca falta fariam à alma-mater daquela despedida. Porque tudo foi programado para a modéstia da decoração, para a simplicidade mais pura, imanente e transcendente, a começar pela escolha do templo, também humilde e envolvente: o local onde todos os domingos partilhava o pão com a comunidade do Campo Grande. Foi posta de parte  a habitual sumptuosidade das basílicas. Nem sequer foi autorizada a recolha de imagens televisivas ou fotográficas da cerimónia. Depois, ali tudo se passou como se de uma despedida familiar se tratasse,  em que foram intervenientes principais os filhos, os netos e os alunos do Colégio. Foi emocionante ver e ouvir os adeuses sentidos, traduzidos em verso e carta, à sua mãe, avó e mestra. Ali, ao vivo,  bem poderia repetir-se  o testemunho dos primitivos cristãos: “Vede como eles se amavam”.
           Não vou alongar-me  no panegírico à Drª  Maria Barroso Soares.  Tudo belo quanto se disse dentro e fora do templo! Relevo, pessoalmente, dois aspectos: um, do cineasta João Botelho, na imprensa de hoje, em que lhe associou a intrépida coragem político-social  da Passionária  e  a   grandeza humanitária de Teresa de Calcutá. O outro, recolho-o das páginas do Êxodo, onde se lê que Moisés, no meio da treva circundante, “via o invisível”. Ao conhecer-se a trajectória do jovem casal “Maria e Mário”, ela, actriz sublime  e exímia docente,  proibida, pelo regime salazarista, de exercer a profissão. Ele, na prisão do Aljube, pela mesma razão-sem razão. Apesar disso, casaram por procuração e foi ela própria à cadeia trocar as alianças. Outro golpe cruel, despedir-se, ela e os filhos, do jovem Mário que seguia deportado para as Áfricas. Mas nunca desistiu. Repetidas e mais destrutivas ameaças, mais perseguições e prisões. Mas nada  lhe destruía nem apagava a chama ardente da esperança que trazia no peito:  o “dia novo,  pleno e inteiro”, a alvorada do seu povo, o 25 de Abril de 1974.  Ela, mesmo no horizonte mais sombrio,  “via o invisível” diadema da Vitória. O seu eloquente testamento para nós viajantes, ainda,  e construtores deste país!
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           Mas este funeral teve, para mim, uma outra revelação, quando o ilustre pároco da igreja do Campo Grande, Monsenhor Pe. Feitor Pinto, me diz logo à entrada: “Ó amigo  Pe. Martins, queres concelebrar connosco?... Vai já para a sala de paramentações”. Lá esperavam, para a mesma função, o núncio apostólico, o cardeal Manuel Clemente, bispos, entre os quais, o anterior bispo das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, teólogos, Bento Domingues, Victor Melícias, os nossos conterrâneos Jardim Gonçalves e Tolentino Mendonça e muitos outros que cumprimentei pela primeira vez.   
“Estou a gostar de ver-te aqui connosco”, segredou-me um deles quando se iniciou o cortejo de entrada. Considerei e ainda considero este convívio fraterno como mais uma prova do testemunho vivo de inclusão, que foi a vida da Drª  Maria Barroso Soares. Tão diferente do regime de exclusão que por cá ainda impera…
Como escreveu Fernando Pessoa, “Morrer é só deixar de ser visto”. Por isso, ela ainda está connosco para nos ensinar a “ver o invisível”! Mesmo “na noite mais triste/Em tempo de servidão”. Como ela!  
Por isso, , A minha e nossa gratidão deixei-as a seus pés, entre estrelícias e orquídeas da  Madeira.

9.Jul.2015

Martins Júnior