quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A MÁQUINA DE FAZER DINHEIRO


Para quem gosta de olhar para dentro  de si e para fora, nunca lhe falta  inspiração nem escasseiam motivos de conversação. E são tantos e tão cheios nesta altura como as gigas que transportam uvas ao lagar. Hoje, precisamente,  ao ritmo dos mercados onde se exaltam pernas e cabeças, nada melhor que apreciar a fruta que o futebol nos oferece em hasta pública. É que em 31 de Agosto fecha o leilão das transferências. E o que se tem visto e ouvido na barafunda da praça do mercado nacional toma contornos dignos de uma peça tragicómica.
         No dicionário de sinónimos do futebol profissional está mais que visto que  o conceito de desporto foi substituído pelo de  máquina de fazer dinheiro. As transferências e as trocas de camisolas fazem um campeonato muito mais decisivo que os golos metidos nas redes adversárias. O que conta são os milhões que a equipa vendedora  amealha ou os mais que milhões que a  turma adquirente prevê arrecadar. Neste mercado livre, a inflação é campeã e rainha. Quanto mais alto subir a bandeirada mais prestigiado é o clube. E o clube mais que o jogador. Não são precisos parlamentos nem decretos nem válvulas de segurança para  as linhas vermelhas. É o reino pré.histórico do vale-tudo.
         Já uma vez tive ocasião de referir-me a toda uma linguagem do mercado da escravatura: “ O jogador de cá foi vendido para lá por 30, 40 milhões, mais tanto por ‘objectivos’… Outro está à espera de ser comprado pelos árabes… Por tantos dólares levas este, por tantas libras  ficas com aquele”. Senão quantitativa, ao menos qualitativamente, reinaugurámos o mercado pós-esclavagista. E o escravo ali está nas rotundas relvadas, desejoso de um cliente rico. que o meta na “limousine” de uma grossa carteira bancária.
Mas, ainda assim, o “candidato-a-comprado-ou- a-vendido” não é senhor do corpo que os pais lhe deram. Fica preso ao senhorio-vendilhão que  só o deixa sair se e quando bem entender. Mais precisamente ao cofre do comprador. “Tens que dar mais 5 ou 10  milhões, senão vendo-o a outro”. Berra o leiloeiro agiota.  Debalde, entristece, esperneia e protesta o dono do próprio corpo contra o dono da empresa. Nada o demoverá, senão a ambição do lucro fácil. “Ficas aí como refém”. E o leiloeiro e seus comparsas “empresários”, insaciáveis e frios, querem mais. Mesmo  contra a vontade do próprio, que só deseja valorizar-se e chegar mais além.  O caso Adrien  impressionou-me vivamente. Não o deixaram sair. Isto só me lembra, mutatis mutantis, o  tráfico de pessoas e não só, em que a presa fica irremediavelmente na mão do explorador de carne humana.
Dir-me-ão que tudo isso está coberto pela legalidade, pois  corresponde a relações contratuais de compra e venda. Mas é exactamente aí que se situa este meu desabafo. Adeus futebol-desporto, adeus expressão genuína do ideal atlético. Diante dos milhares de espectadores, entram nos estádios os novos gladiadores do circo moderno, manipuladores da “roleta russa” que atrofia liberdades e fabrica dinheiro nas arenas para fartar o bojo gordo dos ganadeiros.   
           Não está nos meus intentos desgostar os amigos aficionados pelo futebol profissional, apenas partilhar, se quiserem, o meu enfado perante os grandes “derbys” que passam nos televisores. Do exposto lamento dizer que, nessas circunstâncias, em vez do batimento do esférico no relvado, tudo me soa ao chocalhar do dinheiro caído na roleta. E desligo o programa.
         Enquanto isso,  para atravessar a ponte “impar” do 31 de Agosto e 1 de Setembro, deixo-vos as lágrimas de Slimani em Alvalade, as  quais, por um novo milagre do cartoonista, Carlos Laranjeira, transformaram-se em notas de milhares de libras com a efígie da Rainha Isabel II. É a mitificação do futebol-negócio. Não vou por aí.
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         31Ago-1Set.16
Martins Júnior