quarta-feira, 9 de novembro de 2016

DO TROMBONE… AO TRUMPETE


Os metais foram os tais, os principais, os triunfais, quando hoje, já de madrugada, foi  anunciado o 45º Presidente dos EUA. Em notas garrafais soltou-se a marcha apoteótica da vitória. Erecto, polvilhado, estava ali o homem, ao mesmo tempo, promotor e  coroado, no trono do “Imperador” do mundo, com uma moldura soando ao ouro-capital e à élite do ‘glamour’ americano.
Houve soluços na outra margem, a bolsa emagreceu nas bancas internacionais, houve até quem, de garrote na garganta,  ficasse a gritar pragas inomináveis contra a escultura de pedra dura que ali estava, sem culpa nenhuma. Sublinho: sem culpa nenhuma. O homem não assaltou o trono. Se lá estava, alguém o colocou. Foi o povo, não a maioria dos votantes, mas a grã--lei eleitoral do país. Por isso, a tudo quanto se queira atirar ao “Imperador”, ele responderá: “ Falem com o povo que me pôs aqui”. O que se lhe poderá  assacar serão, quando muito,  os métodos, a ferramenta, talvez os truques ou as trocas (a haver) que utilizou para que o pusessem lá. E a ferramenta foi o trombone. “Põe a boca no trombone e já ganhaste” – é ditado que corre na praça. Foi o que o homem fez. Saíu por aí fora e, de arena em arena, foi assoprando o trombone, de onde saíram toneladas de betão para a muralha no México, cuspidelas sobre a mulher do próximo (e as dos últimos), granadas explosivas contra africanos e hispânicos, tira-dentes para a boca de emigrantes famintos e com direito à vida. Apressou-se, alcoviteira, a sócia mais recente e defendeu o marido, “que ele só falou, mas não fez”, isto é, que o homem só tinha língua e o marido da adversária tinha mais qualquer coisa – estas as principais trombadas e peixeiradas que o trombone botou por quanto é canto. E não é que o zé-povo gostou?!”…
Levou-o aos ombros  para o trono e trocou-lhe o trombone pelo trompete, o rei da filarmónica. E assim se ergueu o Homem-Trumpete.
A ameaça, o insulto, o berro, a falácia  e o ouro-milionário – os pistões do instrumento - resultaram. Por mais incrível que pareça, até os brancos americanos mais pobres puseram o Trumpete em pé de altar. Devem ter ficado satisfeitos quando ouviram a grande nova: que iam perder  o Serviço Nacional de Saúde, o “Obamacare”, criado por Barack…   É curioso e bem esclarecedor saber que, entre os parabéns diplomáticos (leia-se: ‘mafiosos, forçados parabéns’)  dos chefes das nações, uma voz austera, a do ministro da Justiça alemão, esboçou um espontâneo “louco”… um louco a dirigir uma superpotência! Para nós, madeirenses, nada que se estranhe. Tivemos um “trumposo”  exemplar durante 40 anos, com os mesmos tiques e com o mesmo trombone sem vergonha!
Creiam que não me apetece continuar este “Jornal do Incrível”. Como tanta gente, estou atónito e, sem tomar partido nem pelos republicanos nem por democratas, pergunto-me: Como é possível votar num candidato que se apresenta assim numa campanha eleitoral?... Mas parece que o povo gosta. Gosta de ser chicoteado, enganado. O (falso) discurso contra o sistema não explica tudo. A (falsa) defesa do proteccionismo nacionalista também não. Viver aqui e agora não se compadece com o fechar-se sobre si próprio, olhar só para o seu umbigo, ainda que o umbigo se chame freguesia, região ou nação. Somos cidadãos do mundo!
Não é por acaso que, à semelhança de Putin, viesse a ultra-direitista Marine Le Pen, da Front Nacional, rejubilar-se eufórica pela vitória de Trump. Apesar do comportamento da EU (culpa dos governantes nacionais acocorados) partilho da inquietação de Frans Timmermans, vice-presidente da CE, esta manhã: “Pela primeira  vez em trinta anos, eu verdadeiramente acredito que o projecto europeu pode falhar”.  Voltaremos ao ante-1945?
Foi sintomático ouvir da boca do recém-eleito Trump esta piedosa jaculatória, num vagido de cordeiro virgem: “Eu quero unir todos os americanos, democratas e republicanos”. Mas não foi o mesmo senhor que na véspera protestou, com juba de leão feroz, que “se não ganhasse as eleições, não reconheceria os resultados”?...
Respondendo a um amigo que, a propósito do livro de Chomsky, citado no ‘Blog’ anterior, me advertia que o autor estaria exagerando, pois eu apenas declaro e vaticino: Oxalá Trump não venha confirmar as teses de Chomsky: “Quem governa (ou desgoverna, digo eu) o mundo”? O futuro o dirá.
Terminemos este episódio do “Incrível”, de trompete em punho sobre a notícia do dia: “Hoje, o mapa da América é pintado a vermelho”. De que vermelho estão a falar? Ironia das ironias!  

09.Nov.16
Martins Júnior