quinta-feira, 17 de novembro de 2016

RECONHECIMENTO E EXALTAÇÃO

Sei bem que não terá a “dignidade” exigida para encher uma página que se quer ampla e abrangente. Mas não será menos verdade que o nobre sentimento da gratidão preenche as fendas abertas no itinerário do quotidiano. Mais do que isso: é este óleo puro de oliveira que desentorpece a máquina social, urdida de trocas mútuas da sã convivialidade
Querem estas palavras traduzir o meu maior reconhecimento pelas saudações com que muitas amigas e amigos tiveram a gentileza de acompanhar o meu 78º aniversário. Seria de uma tremenda injustiça se o não fizesse. “Saravá” – Bem hajam! Entretanto, permitam que aqui acrescente os principais destinatários das vossas saudações: os pais. Em dia de anos, são eles, pai e mãe, que merecem o aplauso original, porque foram eles que nos fizeram.  Nós apenas demos corpo e alma ao amor daquele homem e daquela mulher que nos puseram no mundo.
            Por outro lado, quero ser o portador das congratulações extensivas a todos quantos nesse mesmo dia incarnam o renovado milagre da Criação Primeira. Serão milhares, talvez milhões. Estendendo os braços ao seu encontro, vejo-os em tantos continentes, em tantas profissões, com ferramentas tão distintas nas mãos. Quando digo ferramentas, digo hipóteses de construção desta faixa da história que nos coube sedimentar por sobre o grande edifício em que somos inquilinos de passagem. Nesta subida, feita de glórias e fracassos,  aproximando-me do vértice – porque a vida é sempre a subir, nunca a descer – concluo que o mais importante não é deixar um grande nome, imobilizar-se num monumento ou alcançar o sol que a todos alumia. Não. O mais importante e único é viver em plenitude o momento, a hora, a hipótese. Quer tenhamos 10 ou 20 anos – viver literalmente a juventude – 30 ou 40 – galvanizar as baterias da criatividade e da ternura -  ou 60, 70 ou 80 - a glória maior é  reproduzir, diria mesmo, “engravidar” o instante, a hora, a oportunidade para recriar o mundo que nos foi dado. É o nosso único episódio em cena. Vivê-lo intensamente, correndo riscos, bebendo mágoas e contratempos, mas sempre exaltando a “ode triunfal” da Vida, que hoje é nossa, amanhã de outros. Esta Vida – a única que conta, como capital e  passaporte  para uma outra que não nos compete decifrar. Por isso, a Vida, seja qual for a meta etária,  nunca envelhece. Renova-se. Transfigura-se.
É  com esta chama acesa que devolvo todas as saudações gentilmente oferecidas, no dia de ontem.
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A gravura que encima o presente agradecimento conjunto tem por objectivo lembrar alguém que pertence ao 16º de Novembro – José Saramago – a quem tive a honra de abraçar em sua casa por ocasião do seu  aniversário, em 2009. Após a tentativa de encontrá-lo no remanso de Tias, Lanzarote, fui informado “in loco” de que, nesse mesmo dia, estava em Madrid. Sem demora, voei atá à Rua da Madeira, onde o nosso Nobel estava em audiência, desde manhã, com editores nacionais e estrangeiros. Visivelmente cansado, mas sempre de uma lucidez penetrante, conversámos sobre Portugal, a Madeira, a justiça social, a Fé, a Igreja, novos planos de escrita, em suma, um fim de tarde pleno, um dos tais instantes que preenchem uma Vida. Recordo-o hoje, este magnífico “escorpião”,  com particular emoção, porque foi o seu último aniversário, aos 86 anos. Depois, só o acompanhei na marcha dolorosa, sim, mas gloriosa, rumo à Cidade Nossa, Inultrapassável, no Alto de São João,  em de Junho de 2010.
Peço à sua filha,  Violante Matos, expressão viva e lídima continuadora do espírito libertador do seu Pai, e à sua eterna musa e companheira Pilar Del Rio, aceitem as minhas saudações e sentimentos do 16 de Novembro, sempre memorável. Mais presente e celebrado será, entre 2016 e 2017, nas comemorações do tricentenário do Lançamento da Primeira Pedra da Basílica do Mosteiro de Mafra, em que será apresentada a reedição especial do seu inigualável “Memorial do Convento”.
Ele, o maior do nosso 16º Novembro!
Não subiremos tão alto no seu voo de Águia Real, mas cada um de nós, manejando,  não já a pena mas a ferramenta braçal e intelectual - o martelo, o leme, o livro, o bisturi -  cada um de nós escreverá no seu dia-a--dia o Evangelho da Vida e a Memória Futura. 
   
17.Nov.16
Martins Júnior