quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

QUANTO CUSTA O 1º DE DEZEMBRO


Fácil é nascer; difícil é o renascer. Saboroso é ter nas mãos o fruto apetecido;  mas doloroso e, por vezes, inalcançável é recuperá-lo, quando perdido. Até na saúde, normal é possuí-la, feito maior é reconquistá-la. Três casos-tipo, os apresentados, para chegar à conclusão de que, em tudo na vida e na história, exige mais esforço e  merece o mais alto louvor a reconquista do tempo e do espaço que antes eram nossos e, por inércia ou traição, deixaram de o ser. É uma evidência.
         Assim foi em 1640, o dia 1 de Dezembro. Assim tinha sido já na crise de 1383-1385. Sempre com a muralha hostil de Castela em frente a Portugal - pequeno no tamanho, mas gigante no ânimo.E assim voltou a acontecer em 1910 e em 25 de Abril de 1974.
Neste ano, as homenagens ao emissário de Castela (leia-se, Espanha) ganharam uma aproximação histórica. Aconteceram, precisamente, antes de Filipe VI deixar o território luso, nas vésperas do 1º de Dezembro. Embora num outro cenário político bem diverso, também há  quatro séculos os Filipes deixaram livre o Portugal então amordaçado por Castela.
         Muito custou a recuperação da Liberdade. Houve quem arriscasse a vida para que, de novo, o Povo Português se revestisse  do brilho de outrora e entrasse na senda do progresso e do crescimento económico e cultural. Por isso, esta data tinha de ser reencontrada, reerguida, alcandorada no trono da história. Apagá-la da nossa memória colectiva foi como que um ignominioso acto de rendição e derrota do nosso prestígio. Uma despersonalização do todo nacional. Assim, a retoma do 1º de Dezembro ganha uma simbologia maior, reacende o nosso brio, levanta, “de novo, o esplendor de Portugal”  e a vontade de erguer a fronte,  à conquista do nosso lugar ao sol. É a reafirmação daquela  independência possível, que outros deixaram cair, esfarrapada, numa governação agradada aos estranhos de fora, mas  opressora aos filhos de dentro. Porque sempre é mais barato vender que comprar.
É este o ímpeto que a proclamação do 1º de Dezembro deve insuflar no subconsciente de cada português, mais que a fortuita benesse do feriado. “Independência ou morte”, clamavam os verdadeiros defensores da pátria.
Tão difícil e necessário quão glorioso é  o troféu da Independência! A todos os níveis: político, económico, social e cultural, Sem respeito pela personalidade endémica de cada nação nunca serão possíveis a unidade e a paz. A submissão compulsiva só produz o silêncio das masmorras e a “paz” dos cemitérios. A Europa terá de sentir no coração e nos centros de decisão a dignidade do Povo Português, em vez de fazer dele um pedinte hereditário, um eterno devedor, sem direito a crescer e a ser livre, autónomo, independente.
O 1º de Dezembro penetra mais fundo no psiquismo individual e na autonomia do pensamento. Incita-nos a rebater o primado do pensamento único,  quer seja no domínio do intelectual, do económico, do filosófico, do religioso, até e sobretudo. Sem liberdade de concepção, o pensamento atrofia-se, a fé mecaniza-se, a história apodrece. O meu voto – o produto desta féria de hoje – define-se assim:  Que o 1º de Dezembro seja todos os dias e todas as horas em que levantes a bandeira da tua personalidade, o cântico da tua independência, respeitando sempre a bandeira de todos quantos têm direito ao mesmo  nobre estatuto.
01.Dez.16

Martins Júnior