domingo, 7 de maio de 2017

MÃE – ORIGINAL OU FOTOCÓPIA?


Tudo já foi dito e tudo ficará ainda por dizer. É assim o Livro, o Poema, a Beleza, a Altura e a Profundidade do nome de Mãe. De todas as quadras populares acerca da Mãe, esta será porventura a que mais se me cola à memória e ao coração: “Por muito que a gente faça/ Em louvor da nossa mãe/ Tudo é nada comparado/ Ao amor que ela nos tem”. Olhá-la, senti-la, amá-la, na sua pureza matutina será a atitude perene de quem lhe deve o ser.
Vê-la na sua versão original! Mesmo quando, pela lei da vida,  dela se apartam os nossos olhos, ficará ela sempre viva, imponente, sublimada no trono dos valores maiores. Por isso que nenhuma fotocópia – papel. tecido, madeira, mármore,  ouro ou diamante – logrará o nosso mais profundo afecto. A cor da pele e a sonoridade da voz materna, nós sentimo-la e  ouvimo-la, com saudade,  bater à nossa porta, quer  dos longínquos continentes, quer do silêncio da campa rasa. E isso nos basta. Porque vemos o invisível e escutamos o inaudível!
Quero partilhar convosco, por toda esta semana, emoções e sobretudo concepções acerca daquela que, desde tempos imemoriais,  nos tem sido apresentada  como protótipo das mães – Maria de Nazaré. Está na ordem do dia, pelo menos até 13 de Maio, em que um milhão de gente anónima caminha, por diversos meios, até alcançar a colina de Ourém, não sei se para ver a fotocópia da Mãe e Senhora, se para ver a figura cimeira do mundo contemporâneo, Francisco Papa.
Desde logo, assumo a condição de vidente empírico da realidade, a qual, sendo bimilenar, mais transparente se torna ao meu  olhar. Dispenso radicalmente as imitações, os roda-pés, os ‘pastiches’, as adaptações berrantes e, por vezes, alucinadas. Numa palavra, rejeito as fotocópias.
Por isso, curvo-me e amo aquela que se comprometeu e gerou dentro da sua barriga mortal o líder imortal dos tempos novos, o Restaurador da Humanidade. Risco tremendo, aceite sem tremer, sabendo ou, pelo menos, prevendo a saga sangrenta e trágica em que retalharia os pés e as mãos ao longo do percurso daquele Filho! A começar pelo ostracismo a que foi votado antes de entrar no mundo – “os seus não O receberam” – até ao supremo martírio  no cadafalso mais ignominioso de então, essa Mulher-Mãe demonstrou uma coragem estóica, roçando o heroísmo. Cumpriu o seu mandato até ao fim. Sem desvios nem hesitações. Sem louros a coroá-la nem panegíricos à sua espera. À estatura enérgica de carácter, aliava uma subtil e interventiva sensibilidade que lhe fazia adivinhar, solícita, o que faltava à mesa da festa do Povo, o vinho nas bodas de Caná. Não percebo por que maquiavélica estratégia a literatura oficial hierárquica esconde nas pregas de um misticismo alienante aquele canto homérico, promotor da autêntica revolução social, descrito de viva voz pela própria. “Eu te saúdo, ó Deus, porque derrubaste os poderosos dos seus tronos e exaltaste os humildes da terra. Eu te bendigo,  porque encheste de bens os famintos e aos  exploradores ricos despediste-os sem nada” (Lc.1, 51-52).    Magnífico, exuberante e arrebatador este que se pode chamar um antecipado ‘Grito do Ipiranga’. De ontem, de hoje e de sempre!
Por isso, amo-a, mesmo que nada me dê. Vê--la e segui-la, à luz forte e meiga do seu rasto, tanto me basta e me chama. Por isso, dispenso as ‘reproduções’ mutiladas, tão em voga. E ainda por isso, peço que Ela me ajude em não perder-me na hipnose colectiva a que é propensa a personalidade neurótica e oportunista dos tempos que correm. É o que me proponho abordar nos próximos dias.

07.Mai.17

Martins Júnior