quarta-feira, 3 de maio de 2017

PREGADORES OFICIAIS DISPENSAM-SE. CHEGOU A HORA DOS AMADORES


O título é desconcertante. Como inédita e ‘perturbadora’ é a iniciativa que me atrevo a comentar. Olhando em nosso redor, perto ou longe detectamos sinais de uma era nova que parece reincarnar aquele anúncio milenar escrito por Joel: “Virá o dia em que os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão” (Joel 2,28).
Na sua mais intensa tradução semântica, o ‘profetizar’ abarca a palavra e o gesto de anunciar boas novas, notícias coladas à vida e transfiguradas pela intuição de quem descobre o “caminho, caminhando”, gente que vai tacteando por atalhos e veredas à procura do marco geodésico que une e dinamiza as linhas do pensamento certo. A essa gente costumamos levianamente chamar de ‘amadores’. E que surpreendentes preciosidades nos trazem os que furam o desconhecido, descobertas latentes no coração dos dias e que permanecem indiferentes aos doutos  ‘profissionais’!
Foi isso que nos patenteou a Fundação Gulbenkian, em Lisboa, quando anteontem o Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges deu a conhecer publicamente o seu novo livro “FRANCISCO, UM DESAFIO PARA A IGREJA E PARA O MUNDO”. Não me refiro ao conteúdo da obra nem me deixo mover pela ribalta “cinco estrelas” da intelectualidade portuguesa ali presente. Nem mesmo pelo estatuto  singular de certas personalidades, como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o general Ramalho Eanes, o Prof. Adriano Moreira,  a  Prof. Isabel Allegro Magalhães, o Prof. Eduardo Lourenço, o Provedor da Justiça,  catedráticos, escritores e jornalistas que encheram a sala.
Outra força maior mexeu comigo. E foi ver “claramente visto” o sopro do espírito pairar no verbo e na voz de quem menos se esperava. Pelo menos, em áreas que, por imperativo oficinal  lhe não são afins. O Autor  pouco disse. Deixou aos comentadores (a que chamo ‘amadores’) a tarefa de decifrar perante a enorme assembleia as linhas mestras do livro. À tribuna subiram as quatro primeiras personalidades que  acima citei. Para espanto meu e desconcerto da ortodoxia hierárquica tão propagandeada, verifiquei que os tais ‘amadores’ conheciam profusamente da matéria em debate, levantaram questões corajosas, direi mesmo fracturantes para a Igreja e trouxeram para a liça a figura imponente e mansa de Jorge Bergollio. Ali falou-se do pensamento religioso, puro e duro. Puro, enquanto processo de liberdade. Duro, enquanto padrão de exigência. Livre e exigente, assim se nos apresentou o fenómeno religioso. No verbo e na voz de ‘amadores’,  gosto de repetir, que nos falaram da periferia para o centro, da base para o vértice, seguindo o método indutivo enraizado na vida, em vez do dogmático e artificioso esquema escolástico-dedutivo.
Foi tal o impacto dos testemunhos apresentados, a transparência e elevação, na forma e no fundo, que cheguei a convencer-me deste terrível dilema: seguir o magistério de uma hierarquia autoritária  não será uma deriva perigosa, porque deturpadora, da Verdade do Cristo Histórico?... Pelos vistos, parece que sim. No final do encontro, um assistente ‘amador’ veio dizer-me: “Está a ver? Televisões, rádios, jornalistas, muitos aqui presentes. E a católica rádio “Renascença”  onde é que está? Não veio. E a própria Igreja oficial também não veio nem se fez representar.
O Prof. Padre Anselmo Borges, segundo a agenda prevista, porá os chamados leigos – os ‘amadores’ – de Portugal a falar de religião, cristianismo, liberdade, compromisso, regresso às origens, na esteira do Papa Francisco. É obra! Em universidades, fundações, associações. Para todos: professores, estudantes, políticos, sociólogos, cristãos, agnósticos, ateus. É esta a grande evangelização nos tempos que correm. E fá-lo, não a coberto de títulos hierárquicos, mas pelo esplendor da Verdade que nos ajuda a descobrir. É por aí que também nós queremos ir!
Por isso, a Madeira espera a sua vez.

03.Mai.17

Martins Júnior