domingo, 27 de agosto de 2017

A POSITIVA METAMORFOSE DAS TRADIÇÕES


Viva a Vida!
Pego na chama acesa com que fechei a simulação – a um tempo, humorística e séria, muito séria – tirada do obituário que a imprensa reproduz todos os dias com nomes iguais ou diferentes do nosso. Hoje, é a Vida que me interessa. Vê-la saltitante como um pássaro e crepitante como um facho de luz nas nocturnas encostas do vale.
´Nesta noite não saio da ‘minha’ capitania de Machico, pioneira dos capitães donatários da ilha, há seiscentos anos.. Alargo os olhos e deixo entrar as fogueiras estivais que neste sábado alumiaram as rochosas e seculares montanhas da minha terra. Para quem as vê pela primeira vez, fica extasiado. Quem as repete duas ou mais  vezes será tentado a bocejar, desconsolado: “ mais do mesmo”.  Engano. A tradição dos fachos é sempre nova e rediviva para as gentes de Machico. Há quase oitenta anos que os acompanho desde criança e acho-os tão cativantes como desde a primeira hora. Mais renovada e mobilizadora é a tradição para a perto de centena e meia de mãos, todas jovens que arduamente se levantam até aos altos socalcos previamente preparados para o grande anfiteatro luminoso de Machico. Honra e valor a essa juventude que mantém acesos não apenas os fachos mas a memória dos seus antepassados.
Entretanto, desbravemos as remotas veredas da história e lá encontraremos, decepcionados, a genuína identidade dos fachos. Aquilo que hoje nos delicia e aquece a sensibilidade, afinal, nasceu num temeroso ambiente de roubos e predações que com que os corsários e piratas dos mares amotinavam os incautos habitantes das ilhas. Para defender-se dos invasores, usavam como meio de comunicação nocturna o lume vigilante  nos picos estratégicos do território, a fim de que as vilas e aldeias preparassem a defesa, quer munindo-se de armas artesanais, quer fugindo para as furnas situadas nas serras. Aqui radica a toponímia de alguns desses picos, como o Pico do Facho em Machico e o Pico do Facho no Porto Santo.  
Depois, fortificadas as ilhas e debandados os corsários, o povo deixou-se fascinar pelo sortilégio das chamas desenhando a silhueta das montanhas. E continuou a acender fogueiras. Fez a catarse do medo com a metamorfose do lume vivo: o fogo já não era o alarme convencional contra o terror mas uma homenagem a uma divindade, neste caso,  o Santíssimo Sacramento.

A espantosa imaginação popular que do medo fez beleza e  encantamento! Não fossem os corsários da costa e hoje não teríamos os fachos, ex-libris de Machico, na “Festa do Senhor”, último domingo de Agosto!
Não é caso único na historiografia do Cristianismo. São inúmeras as tradições e rituais pagãos, desde Grécia a Roma, que a Igreja oportunamente (e oportunisticamente também) acolheu e deles se apropriou para dar-lhes uma nova veste, sacralizando assim as grandes festas pagãs em homenagem aos deuses, porque tais festas mantinham-se  ainda arreigadas nos povos convertidos. O caso mais flagrante cinge-se ao Dies Natalis, o Natal cristão, que teve origem nas famosas Saturnália, festas dedicadas ao deus Sol sob o signo de Saturno, realizadas pelo Império Romano  entre 17 e 25 de Dezembro. Só a partir do século IV, a Igreja ‘canonizou’ os costumes pagãos em honra do deus Sol, substituindo o Sol pagão por Jesus Cristo que passou a designar-se por Sol Justitiae, Cristo - Sol da Justiça, como se canta nas antífonas.
Muitos outros rituais poderia citar. Mas aqui o que importa relevar é a vantagem filosófica e prática de não arrasar liminarmente as tradições populares. Se elas se identificarem com a idiossincrasia de um povo, é sensato preservá-las, segurando o que de valorativo possuírem e, se algo de menos digno ou anacrónico comportarem, a solução será a de operar-lhes uma metamorfose interpretativa, transfigurando-as e imprimindo-lhes um carácter nobilitante, actual, construtivo. Neste caso, suponho poder aplicar-se o princípio geral do Direito: Pacta sunt servanda, os pactos ou os acordos devem ser conservados, cumpridos. E as tradições também.
Muito longe levar-nos-ia esta tese. Em vários quadrantes da sociedade. Por hoje, a convicção de que valeu a pena conservar a tradição originalmente radicada nos assaltos dos corsários da costa, para que o nosso olhar se enchesse da luz envolvente do vale de Machico, com “Os Fachos na serra, Altos a brilhar”. Ontem, hoje e amanhã.

27.Ago.17
Martins Júnior