terça-feira, 5 de janeiro de 2016

OS MAGOS, REIS E PRESIDENTES, PASSAM À NOSSA PORTA. TODAS OS DIAS, TODAS AS NOITES


OS MAGOS, REIS E PRESIDENTES, PASSAM À NOSSA PORTA. TODAS OS DIAS, TODAS AS NOITES

A cada estrela a sua luz…A cada ano a sua graça!
Foi assim a saudação do nosso presépio de 2015/16. Porque em cada ano que passa há sempre um toque de graça que ilumina o ano anterior. Queria assim fosse também o episódio que hoje vos trago  --- o Dia de Reis --- que puxa pela tradição e se publica nas gargantas dos romeiros “reais” em volta da nossa ilha proclamando, toda a noite de casa em casa, a apoteose da quadra natalícia.  
            No ano transacto e no mesmo dia 5 de janeiro, propus que se visse na aparição dos Magos do Oriente  o prenúncio da Grande Assembleia das Nações Unidas  em torno dos valores mais altos da condição humana. Afinal, olhando para o rasto deixado desde há 365 dias, nem reis nem príncipes, nem suseranos nem vassalos fizeram mais que estilhaçar os acessos à magna reunião dos povos.
            No entanto, a estrela iluminante leva-me a sonhar teimosamente  com esse longínquo areópago das nações para onde caminham os novos magos do Norte e do Sul, do Oriente e do Ocidente. Quero iludir-me nesse “engano de alma, ledo e cego, que a Fortuna não deixa durar muito”, como sonhava a “linda Inês” nas estrofes d’Os Lusíadas (III, 120). Eles aí passam na minha rua, nas paredes do meu quarto. Uns caminham de peito aberto sem embuste, outros de punho fechado armadilhado, outros nem conseguem dissimular as kalashnikov que trazem sob os camuflados de guerra. Eu vejo-os, a olho nu, e distingo-lhes as feições: na vanguarda os que estendem as mãos livres para o sol; a meio os calculistas, que as barras de ouro aos ombros entorpecem a caminhada e, por fim, os da rectaguarda,  sanguinários sem preço,  prontos a espetar a bala traiçoeira nas costas dos que os precedem.
            Apesar de tudo, espero, contra toda a esperança, vê-los chegar, (mesmo os calculistas e sanguinários) exaustos, acéfalos, de rastos, quebrar as armas diante da evidência da grande morada da Vida, onde brilham livremente as bandeiras da Igualdade e da Fraternidade.  Não há outro castelo a conquistar, não há Evereste  a transpor senão aquele  que vem de longe, de Belém, e assentou arraiais no centro do Planeta.
            Espero. Mas vejo que não chega esperar. Chega-me, sim,  cá dentro a voz profética e o legado quente de madre-mãe Sophia:
Vem, vamos embora,
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
            Imperativo, decisivo é saber. Saber que o programa das Nações Unidas começa à nossa beira. Saber que a rendição dos ditadores passa pela nossa porta:  na pedagogia familiar contra a violência doméstica; na autarquia que não devemos deixá-la à solta nas mãos dos  titulares; na denúncia dos usurários da banca que nos comem nas entrelinhas das imperceptíveis letrinhas; na escola e no hospital onde queremos uma saúde global --- física e cultural ---  para todos. Enfim, na urna do voto que é a arma silenciosa capaz de anular as metralhadoras dos fortes. Acobardar-se no silêncio ou nas migalhas do interesse exclusivista é retardar a marcha dos “magos” de hoje, é atrofiar o crescimento da História.
Dia de Reis --- o mito de outrora poderia transformar-se na epopeia de agora. Se não deixarmos que os capilares do mal e da extorsão  cresçam dentro deste corpo que habitamos…  Se cada um de nós quiser, os “magos” do presente não terão outra vereda senão a que leva  a Belém.
Quem sabe faz a hora!       

05.Jan.16
Martins Júnior