terça-feira, 29 de novembro de 2016

QUANDO É O PÚBLICO QUE APRESENTA O LIVRO…

        
     Abrem o olho as “câmeras” televisivas e enchem-se folhas inteiras com minudências de circunstância, a que dão títulos garrafais, como inovação, originalidade, caso único. Mas, quantas vezes, fazem orelhas de mercador a factos que, esses sim, trazem algo de novo, singular, eminentemente criativo e contributivo para a construção do corpus social!
         Vi e senti “ao vivo” no último fim-de-semana um fenómeno único na minha experiência quase octogenária: a apresentação de um livro em que não houve um avental falante e galante a abrir a cena. Nem o próprio Autor se deu ao afã narcísico de ler e interpretar uma só linha do seu texto. Para insólito espanto meu, os protagonistas  foram os participantes no acto, sem atavios nem holofotes nem os oficiais jarrões amovíveis das aberturas e fechaduras das solenes comemorações. Tudo tão simples, tão tangente, tão íntimo, como quem fala ao coração de quem se ama.
         Aconteceu na Câmara Municipal do Funchal, que cedeu o espaço para o lançamento de mais um  livro de António Barroso Cruz, ESTÓRIAS  A NU E CRU, publicado pela “Liberal” Editora. Traumas sociais, fracturas abertas no solo que habitamos, tais como o drama dos refugiados, a violência doméstica, a pedofilia infantil no santuário eclesiástico, são alguns dos capítulos candentes deste livro, escrito em estigmas “nus e crus” e moldados num estilo directo, por vezes corrosivo, queirosiano.
         O Autor dispôs a sala de tal forma que ninguém esteve de costas para ninguém. Olhos nos olhos e ombro a ombro, uma energia palpitante corria por todos e enchia a sala como o ar que se respira. António Cruz, sem qualquer introdução formal, deu a palavra aos presentes. Falaram as vítimas de violência doméstica, desdobrando sem tabus o sofrimento silenciado anos e anos nas “prisões” da agressão sem queixa. Passaram, no depoimento de quem presencialmente acompanhou  e relatou,  os gritos dos foragidos da guerra. Tocou-se sem hipocrisia o escândalo da pedofilia na Igreja, as causas a montante e os crimes a jusante, o sigilo cúmplice da hierarquia e a veemência do Papa Francisco na condenação dos abusadores.
         Mas o Autor das ESTÓRIAS não se limitou a ouvir  a narrativa dramática dos factos. Interpelou, face a face, os presentes, penetrando no íntimo das nossas convicções e da nossa consciência latente, até ao limite de interrogarmo-nos a nós próprios sobre o contributo efectivo que podemos dar na solução das questões em apreço. Observei atentamente e surpreendi-me com a capacidade de liderança do promotor deste encontro na condução dos diálogos, tão delicada e necessariamente respeitadora da liberdade e da privacidade de quem se propôs intervir.
         Devo dizer que nunca em tempo algum – nem mesmo nos retiros  ou em  assembleias colectivas – assisti a uma tão pura elevação espiritual, incisiva e dinâmica, ficando ali envolvido entre a psicanálise, a catarse e a confissão. Deste tríptico interior, voltado para o exterior - a vida e a acção - sobressaiu uma leveza psíquica, uma libertação indizível e reconfortante, sublinhadas no final pela poesia e pela canção, como o fruto mais saboroso daquela estância transparente.
         O sortilégio do momento esteve na verificação deste estranho paradoxo: o livro, afinal, não foi apresentado. Ele próprio se apresentou. Melhor, talvez:  os destinatários daquelas páginas vivas foram os oradores natos de tão impressiva mensagem. Aqui reside a inovação criadora e, com ela, o meu apreço por tão singular iniciativa, que merece  continuidade, para contraponto da vacuidade campanuda  dos tempos que correm.

29.Nov.16

Martins Júnior